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O que é isto?
 
 


Day After Day





Segunda-feira, cedo. Olhei para o relógio. Um minuto para as seis horas. Pisquei o olho esquerdo para os dígitos meio embaçados : "Dessa vez, te peguei !" penso, voz jovial. Enquanto isso os dedos tateiam na escuridão e desligo o alarme que iria disparar, desesperado, daqui há segundos.

"Pronto", lá vou eu escovar os dentes e preparar meu café da manhã solitário. A cabeça dói. Meu Deus, a cabeça.

Quando a água do café começa a borbulhar penso que minha cabeça dói muito. Muito. Não, não bebi nada, não me afundei no uísque, na cachaça, na cerveja.
Sequer uma gota. Será que foi a torta de frango ? Será que coloquei açúcar demais no refresco amargo de tamarindo? Não consigo lembrar. Encho a caneca de café e o cheiro quase faz com que eu vire pelo avesso.

Socorro.

Água, água. Aos poucos, consigo tomar o café e engolir um pedaço de casca de pão. Estou curioso, mas a sensação maior é a de morrer provávelmente daqui há pouco.

Ir trabalhar. Ponto de ônibus. Ponto cheio de gente.

Vinha vindo um ônibus vazio. Com o canto do olho li o seu letreiro de destino. Dizia "Minha Vida". A dor de cabeça era maior, a náusea também. Subi sem pestanejar.

Ônibus vazio.

Motorista, cobrador. Cobrador dormindo.

Irrito-me e ele finalmente acorda, Não tem troco. Pode passar, mas aguarde aqui perto, já já dou o troco. Dor de cabeça, dor de cabeça ! Volta a dormir.

O ônibus arranca. Estou sozinho. Violentamente sou catapultado para o fundo do veículo. Meus joelhos chocam-se com um banco. Viro rapidamente, sento e seguro-me no banco da frente. O motorista é louco ! Dor de cabeça ! Acho que vou vomitar agora. Não! Respiro, sinto gotas de suor em toda a cara.

O motorista vai acelerando,

Acelerando. Estou sozinho. Muitas avenidas. Pontos lotados, apinhados de gente. De vez em quando ultrapassamos outros ônibus, quase vazios. Mesmo letreiro : "Minha Vida". Normalmente três pessoas : um motorista, um cobrador, um passageiro.

'As vezes passamos por outros ônibus, direções, destinos diferentes. Apinhados de gente. Lotados. Gente pendurada por todos os lados.

Passamos também por ônibus parecidos com esse em que estou. O letreiro, o destino marca "Minha Vida". Vazios, vazios. Cobrador dormindo. Motorista contando histórias sozinho. Que ele fez, que ele desfez, que ele acerta as contas com os outros com as mãos, e, "na hora ! na hora !".

Quanto mais alto ele fala, mais fico perto de achar que não sobreviverei até o dia de amanhã. Ora, que mentira.

Se a cabeça dói, isso deve ser um sinal de vida.

E, pensando bem,
Ainda prefiro meu ônibus, que anda torto, com um motorista falastrão e um cobrador dorminhoco.

E se eu pegasse o outro ônibus,
cheio de tanta gente, e não saberia em que ponto descer ?

E tanta gente para passar na roleta, e a falta de troco, e ... tanta coisa.

Tanta coisa. O motorista prepara-se para contar mais uma história infame... mais uma !

A cabeça doi. Urgência de respirar ar fresco.
Saltar daqui há pouco. Queria dormir como esse cobrador dorme.

Pelo menos, esse ônibus chama-se "Minha Vida".

 

Inspirado livremente em "The Wayward Bus", by John Steinbeck.
Obrigado a minha querida amiga Mari Baldin Camargo.



Escrito por Caio às 18h09
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Fly me to the Moon



Fly me to the moon
And let me play among the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter and Mars
In other words hold my hand
In other words darling kiss me

Fill my life with song
And let me sing forevermore
You are all I hope for
All I worship and adore
In other words please be true
In other words I love you



Leve-me até a Lua
e me deixe brincar entre as estrelas
Deixe-me ver como é a primavera
em Júpiter e Marte
Em outras palavras, segure minha mão
Em outras palavras, beije-me querida.

Preencha minha vida com uma canção
e deixe-me cantar para sempre
Você é tudo que eu espero,
Tudo que eu adoro, tudo que eu venero.
Em outras palavras, seja verdadeira.
Em outras palavras, eu te amo.

 

Composição : Bart Howard. Voz : Francis Albert Sinatra (a Voz)
Imagem : NASA

"Fly me to the Moon". Tradução Livre de Johannes Z.

 

 



Escrito por Caio às 16h59
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Lição de Geografia

 

Na terça-feira, as dez horas da manhã são azuis, e a professora tenta nos incutir o gosto pela Geografia. Sem muito sucesso, necessário dizer.
"E as montanhas jovens ?", pergunta.
A Cordilheira dos Andes ? As Montanhas Rochosas ? Os Alpes ? E os Urais ?
Dá para perceber sorrisos pequeninos, dissimulados nas outras carteiras, enquanto a professora continua, gosto juvenil. Traça rotas de viagem pontilhando o giz de várias cores, e enquanto tentamos, juro que tentamos seguir a viagem que começa em Paris, França e termina em Krasnoiarsk, Sibéria, não paro de pensar que seu mapa, mal e mal desenhado na lousa, não tem muita escala ou proporção entre os países, os continentes e seus mares e oceanos. Imagino que se a distância entre as duas cidades fosse proporcional em escala de algum sistema métrico que fosse, Paris seria nossa escola, o ponto de partida, e se fosse andando, de ônibus e trem - vá lá, teríamos que trocar de trem várias vezes, a Trans-Siberiana é feita com várias bitolas de estrada diferentes, atravessaríamos avenidas, viraríamos ruas desconhecidas, esquinas ignoradas, becos inimaginados. Então a linha pontilhada vai dar em Krasnoiarsk, digo, o final de uma rua, um terreno baldio, um homem sentou-se em uma pedra e começou a fumar, cigarro após cigarro, fechou os olhos, tentou dormir um pouco, espera inútil, amante infiel, seu espectro foi embora e restaram os sapatos pretos, um dos pés furados, cansados de tanto esperar. Calma, professora : cinco minutos para o final da aula, o sino vai tocar impiedoso, infelizmente não é o apito de uma locomotiva, mas um sino, professora, só um sino que marca a hora do recreio, das aulas, sim, seu começo e seu final.



Escrito por Caio às 22h13
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Temporarily Disconnected



Metropolis by Fritz Lang



No sonho automático de seu sono automático, ela sabia que seu botão liga-desliga estava inativo e que seu defeito de fabricação faria com que o botão fosse milagrosamente acionado todos os dias, três e vinte da madrugada. Quando isso acontecesse, sempre de forma involuntária e à mesma hora de todas as noites, ela ergueria sua coluna vertebral metálica da cama em um movimento perpendicular que não dura muito mais do que uma fração, centésimos de Tempo. Abriria os olhos como quem acorda de um sonho ruim, sentiria um gosto amargo e corrosivo na boca metálica e haveria de pensar : "esse óleo que lubrifica minhas entranhas anda cada vez mais ácido". Então haveria um lamento, seus olhos metálicos pensando que não deveria ter acordado, e que o defeito de fabricação é horrível. Andaria com seu cérebro até o começo do dia, quando o café dos humanos tem que estar pronto, o bolo, as frutas - laranja, nessa semana. Haveria um outro lamento, pois pensaria que à essa hora já estava ligada na eletricidade, duzentos e vinte volts, e que isso não faria tanto bem assim aos seus circuitos, principalmente os mais delicados. Olha para o relógio e decide repousar mais um pouco, mas o botão de desligar está emperrado e não consegue voltá-lo à posição de desligado. Então antes de desesperar, lembra-se do sonho do qual acordou : um navio gigantesco, uma viagem de navio, e o navio choca-se com um iceberg em algum mar do Norte e começa a afundar. Lenta, a água começa a invadir todos os compartimentos. Não se lembra de haver milhares e milhares de sobreviventes, apenas os vê rumando para o convés, e decide imitá-los. Passa pelo teatro do navio, já inundado, onde outro navio faz evoluções no palco, como uma baleia amestrada que apita seu apito de vapor. É a peça do naufrágio, a que levam nesse navio, para que adultos e crianças saibam dos perigos do mar e fiquem entretidos, na tempestade ou na calmaria. As escadas vão dar em um salão, longo e envidraçado, onde não há botes salva-vidas, mas carros e limousines que chegam, recolhem seus ocupantes, e partem, rumo à sobrevivência. Espanta-se em perceber que há um carro a ela destinado, entra no carro e senta-se no banco de trás, como uma grande dama de metal que é levada por seu motorista invisível, um computador que dirige o carro sozinho. "Para casa", ela diz, e o sedã reluzente e prateado, leva-a por estradas sinuosas pelas quais jamais andou; por fim começa a reconhecer que está perto de sua casa. O carro para, abre-se a porta, e ela desce. O carro arranca e ela vai andando em seus passos metálicos, silenciosamente até entrar na casa. "Eles devem estar dormindo", desliza silenciosamente até seu quarto, enquanto pensa nos humanos que acordarão daqui há pouco. Aperta o botão, a porta abre-se e ela entra no quarto. Lá está ela, deitada no seu simulacro de cama sem colchão ou cobertor, com seus olhos eletrônicos fechados que movimentam-se aleatórios, por detrás das pálpebras metálicas e eletrônicas. Abaixa-se e sorri, contemplando seu próprio rosto; com sua mão esquerda tenta acariciar sua própria face, metálica e fria, enquanto que os dedos da outra mão procuram o interruptor, na altura do quadril. Sem pensar muito, ela aperta o botão, e finalmente o interruptor desliga-se : os olhos param de correr por detrás das pálpebras metálicas e eletrônicas. Procura o relógio, inútil procurar tanto assim, não importa muito que a noite passe, que a madrugada termine, que a manhã comece : eternidades hão de se passar, talvez seus olhos fechados não as percebam; um dia talvez conserte esse botão que está quebrado, o botão que liga e desliga, mas por enquanto, enquanto esse momento não chega, melhor é ficar desconectado, temporáriamente desconectado.



Escrito por Caio às 10h04
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O Carnaval das Sombras


"Untitled", (C) Diane Arbus, 1970-71

Nesse momento solene, tudo é muito parecido com o passado.
É Fevereiro, e durante três ou quatro dias, tudo parava.
Pessoas correndo como formigas para as estradas, praias, viagens, acidentes.
Danças, festa. Brigas. Correria. Música martelando os ouvidos.
Letras, versos inimagináveis. Pessoas despidas. Ou pouca roupa. Calor.
O silêncio era precioso. Vinha a chuva, lavava a imaginação, a cidade.
Logo o calor voltava, pegajoso.
No entanto era delicioso andar pelas ruas da cidade deserta. Talvez mais do que agora. Ver o que restou do horizonte, pelo vão do grande museu.

Sentir um cansaço e uma vontade de dormir infindas.
As ruas, o céu, as paredes das casas, os telhados, tudo cor de chumbo. Chuva chegando.

Ando pelas ruas estreitas desse bairro, sabendo que daqui há pouco tenho que voltar, a chuva me pega.
Logo o silêncio é agredido por ruidos, e vou chegando mais perto.

Música alta. Marchas de carnaval. Músicas de carnaval. Um baile !

Parece um galpão de oficina mecânica, convenientemente adaptado para um baile.
Máscaras enormes : rei, palhaço, bailarina, macaco, homem-macaco, mulher-macaco, pirata, tudo pregado nas paredes encardidas... aqui e alí, serpentinas de cores diferentes - jurava que é papel de embrulho, caiam do teto, suspensas - que medo que, como serpentes, comecem a se mexer.

Uma bola, minúscula, bola de futebol, com espelhinhos colados em sua superfície,
presa a um eixo no teto, girando devagar. E músicas, músicas antigas da época em que eu pensava em ser criança, sonhava quando tivesse dez ou doze anos de idade, seria um menino grande, sabido, esperto, estudioso....

Nunca gostei de carnaval.

Para falar a verdade, a música era ensurdecedora.

Ninguém no salão. Ninguém. Como se tudo tivesse preparado e à espera. Iriam chegar os convidados,
suas crianças, seus romances, sua bebida alcoólica, seus dramas, suas alegrias. O Baile aguardava esse momento.

Deitado em um banco, um senhor, barba malfeita de vários dias.
Vestindo branco encardido, camisa listada, e sapatos de sambista.
Um sono profundo. Hálito paralisante. Resmungou um verso bêbado e virou-se para o outro lado.

Antes que acorde, dou uma última olhada, Não quero dançar nem sozinho, daqui há pouco o baile começa,

Vai chover, o caminho de casa. Horas e horas andando.
Antes que acorde, vou andando, sem olhar para trás.

Vida estranha : o mundo pode até passar por um apocalipse,
E no que restou dele andamos como sobreviventes.
Mas é tão engraçado,
apesar de tudo haver se acabado o Carnaval não acaba.



Escrito por Caio às 15h05
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Silêncio

 

Não estou brincando quando lembro que estou em um deserto.
Ninguém, nenhuma alma. Tantos e tantos dias.

Um rádio portátil que funciona na boa vontade das pilhas... A diversão das noites frias e escuras é
girar o dial em busca de uma estação.

Consigo escutar vozes,
vozes que estão falando
em uma língua qualquer
que não sei o que é

Vozes como estrelas que se apagaram já faz muito tempo
e cujo brilho está chegando agora,
nesse planeta.

Vozes com palavras desconhecidas contando histórias de filmes
que eu nunca vi e que me fazem dormir.

Histórias que me conto à noite
quando a cama é maior
e mais fria,

Um dia as pilhas se acabam,
Mas juro que o que eu queria mesmo
era encontrar algum Wolfgang Amadeus 
perdido no meio da estática desse espaço.

Agosto, 2007



Escrito por Caio às 09h12
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O Baile





Noite de dia não-contado. Junho frio. Festa, santos. Os santos de junho.
Dançamos, embevecidos.

Olho teus olhos.
Teus olhos me perseguem. Nossas pernas, trançando.
Dançando, dançando.
Risos.

Músicas, músicas.

Uma hora, começam a tocar o Hino Nacional.

Talvez não tenhamos percebido. Nós somos jovens, jovens, jovens. Nós somos jovens, do exército da paz.

Um hino, o Hino Nacional. Dançamos, sorrimos !
Não percebemos que soldados chegam por todos os lados.

Mãos grossas arrancam-me de ti.

Que é isso ? Protesto. Que fazem ? O que eu fiz ? Porque me levam ?

- O senhor estava dançando na hora em que tocou o Hino Nacional e atentou contra a segurança da Pátria, disse o mais graúdo dos soldados. Deverá ser preso e colocado em isolamento imediatamente.

Aparecem a diretora da escola e a professora de Ciências, aflitas. Larguem ele, diz a diretora.

Faço esforço para livrar-me dos braços que me prendem.

- Por favor, soltem-no, diz a professora de Ciências. Ele é apenas um menino.

Escoltam-me até a diretoria, ombro a ombro com a diretora e com a professora de Ciências.

Soldados seguem junto, atrás de nós. Chegamos à porta.

- Para trás, diz a diretora. Isso é a Diretoria de uma escola e os senhores não podem entrar. Se o rapaz cometeu alguma falta contra a Disciplina, ele fica aqui para ser punido. Mas isso é um assunto nosso, de Diretor e Aluno : os senhores não podem entrar.

Diz o soldado mais graúdo :

- Senhora, devo advertir que no exato momento em que esse rapaz deixar essa sala, será prisioneiro pelo crime contra a segurança da Pátria que cometeu enquanto dançava o Hino Nacional.

- Vão embora. por favor.  (diz a professora de Ciências) Ele é apenas um menino.

Telefono a meu pai e peço que venha me buscar.

- Imagine se vou sair daqui, diz ele. Você não é amigo desses comunistas, vagabundos, barbudos, esquerdistas ? Todos iguais... fique preso por aí para você aprender a ser gente. Da próxima vez, preste mais atenção à música.

Desligo o telefone. Inútil.

Trazem-me café, alguma comida, cobertores. Acampado no sofá da sala da diretora, onde levei algumas reprimendas difíceis e ri meu riso mais solto.
Estou acuado, preso. Refém da Segurança Nacional.
Vou espiar pela janela e encontro os guardas em sentinela nos quatro cantos da escola Questão de segurança. Procuram-me.

Não é possível, pensa a professora de Ciências. Ele é apenas um menino.

A festa acabou, a escola está silenciosa, estou só, na Diretoria.
Tento dormir, não consigo.

Às vezes fecho os olhos, sinto-me rodopiar contigo, sinto teus olhos perseguindo os meus, a música que nunca para... abro os olhos.
Não consigo dormir.

Uma névoa pesada cai sobre uma madrugada gelada. Imagino os soldados, debaixo de seus capotes, tritando os dentes de frio e xingando esse menino que resolveu dançar bem na hora em que tocavam um hino, o Hino Nacional.

Acordo. Pássaros.

A professora de Ciências me olha, séria.

- Pode ir agora, eles já foram embora.

Obrigado, obrigado, penso enquanto desço rapidamente as escadas que me levam ao Térreo.
A porta principal, já aberta.

Olho atentamente. Tudo está frio, meio escuro. Eles podem estar escondidos por aí.

Ela pensa : é apenas um menino. Se quiserem brigar, que venham brigar comigo. Nunca com um menino.
Seus ouvidos pressentem-no descer as escadas, passos acelerados, em direção aos primeiros ruídos da rua, nada mais que silêncio.

Por entre os prédios da cidade, vou andando na direção de casa. Imagino teus olhos, que me seguem.
Posso ser preso a qualquer momento. Mas vou andando no rumo de minha casa.

Sou apenas um menino.

Escrito por Caio às 00h47
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A Little Bit of George (O Lord, we miss him so much)



Young George Harrison,
Coming out of the rain,
He´s exiting the screen,
He´s entering the dream,

Too many songs to play and deal with,
A cup of coffee, litting a cigarrette,
He wants to know all team´s scores,
A girl with blue eyes to tell him all stories.

He closes his eyes and wander,
All the gurus sitting on the way to frozen montains,

All the lessons to learn, nothing to teach,
Nothing to say, and there´s one more song...

Young George Harrison,
We have both seen the same rain.

 



Escrito por Caio às 20h09
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Lapsos




Acho que dormi um sono
daqueles forçados,
por um porrete na cabeça.

Desmonto-me na calçada da rua,
Acordo tarde,
Não ouço pássaros cantando,
mas o barulho dos carros no leito carroçável,
o frio da manhã gelada.

O que aconteceu é mistério.

Quanto tempo dormindo ?
Será que descobriram, nesse meio termo,
a cura do câncer,
Será que meu time foi o campeão ?
Será que o mocinho veio em seu cavalo alado,
derrotou o bandido e casou-se com a mocinha ?

Será que a moda agora é a esperança,
Será que ganhei na loteria ?

A cabeça dói, enquanto levanto-me
e vou andando lentamente.

O frio me tomou de assalto.

Chego à banca de jornal,
Manchetes estampadas : que pena.

Mãos nos bolsos,
vazio irritado da surpresa.

Antigas são todas as notícias.



Escrito por Caio às 01h52
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Bilhete

Gosto muito de escrever. Faço-o desde os oito anos de idade.
Vou amar esse ato desde sempre até o último dia de minha vida.

"Impressões de Fevereiro" é um blog que existe desde 2005.

Inicialmente tinha a idéia de publicar um blog de comentários sobre atualidades. Na época em que surgiu a idéia de fazer o blog, o País estava sacudido por uma crise política e institucional sem precedentes em sua história.

Diante de tudo aquilo que era exposto e comentado, achei que minha idéia era redundante. Não valeria a pena ser só mais uma voz clamando por justiça, moralidade, ou por uma relação de coisas que não podemos tocar, que faltam na vida desse País.

Outras pessoas podem fazer esse discurso e expor uma indignação individual e coletiva com mais classe e propriedade.

Veio-me nessa época uma metáfora recorrente, algo que sempre imaginei, desde quando era criança. "E se milhões de bombas de neutron explodissem, e a população do mundo fosse quase dizimada : Que fariam seus sobreviventes, se existissem ?"

Isso já pode ter sido pensado por mais gente, nesse mundo.

"Além da Imaginação", passava em preto e branco na tv de quase quarenta anos atrás, fazendo-nos sonhar coisas coloridas...
Marcelo Rubens Paiva, em 87, escreveu "Blecaute", um livro brilhante que contava uma história parecida com essa. A diferença é que ele colocou as pessoas inanimadas como partes do cenário desse mundo devastado : eu imagino que em um mundo devastado por qualquer holocausto, não sobre realmente muita gente, e que os sobreviventes vaguem, durante um tempo, tentando acostumar-se com a nova situação, tentando fazer alguma coisa, adaptar-se à nova ordem, ou negá-la simplesmente.

Então, "Impressões de Fevereiro" começou. E agradeço de coração à todas as pessoas que chegaram, cada gesto de incentivo e de carinho, que foi o combustível desse trabalho.

Obrigado de verdade. Obrigado a todos.

É possível que haja uma mudança de endereço físico de onde esse blog se situa e é muito possível também que até o segundo semestre algumas coisas estejam diferentes no conteúdo e apresentação.

Não quero antecipar muita coisa. Mas comunicarei a todos, no devido tempo.

Nós somos sobreviventes, de uma certa forma.
Nossa esperança explodiu, e dia após dia, tentamos negar esse fato. Um dia não será mais possível dizer não à nossa própria dor, e nesse momento, voltaremos a civilizar nosso planeta.
Minha esperança mede um décimo de nanômetro.
Que tenhamos aprendido alguma coisa. Afinal, acredito que é para isso que ainda estamos aqui.



Escrito por Caio às 19h44
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Longe do Cão de Guarda

Desliguei o motor e apaguei as luzes. Tudo ficou no escuro. Havia sido um dia muito corrido de trabalho, e as últimas luzes da estrada tinham tido o poder de relaxar, e fazer com que me concentrasse na perspectiva de um banho quente, um copo de leite gelado e um oceano de sono em minha frente. Junto minha valise de mão, algumas pastas e papeis soltos. Busco a chave de casa no bolso da calça : presente. Abro a porta do carro, alguma coisa se agarra ao meu braço esquerdo, enquanto ouço algo parecido com um enxame furioso de abelhas e ao fundo um resmungo irritado. A dor é lancinante, mandíbulas fechadas e o sangue escorre pela camisa em frangalhos : Fido. Se gritar de dor acordo a vizinhança. Não, Fido, não ! Com um pé esquerdo, tento afastá-lo, não posso deixar que engula a carne do meu braço; contínuos pontapés , quem sabe se o acerto na cabeça.; Estou sentado no banco do motorista com a porta semi-aberta e as duas pernas para fora do carro; consigo dar uma solada, e finalmente ele desiste. Desiste não : fechei a porta do carro, a trava elétrica funciona, ele late desesperadamente. Com uma flanela limpo o sangue, descubro que Fido morde como um tubarão. Quase arrancou meu braço, que doi e lateja insuportável. Ele se afasta e para de latir, e percebo que o silêncio faz com que o braço doa mais. Rasgo o que restou da manga da camisa, seria bom procurar uma torneira, água para lavar o ferimento, e se esse cachorro estiver doente ? Ele está doente, e penso em abrir a porta devagar, sem fazer barulho ou movimento, mas ele percebe as coisas no escuro melhor do que ninguém, e volta, correndo e latindo. Retirada estratégica : fecho a porta, ele continua latindo na minha frente, uma fera desafiando. Quem é Fido ? Não é meu, não sei se é teu. Chamo-o de Fido, pois parece fiel ao seu dono, e a tudo aquilo que deve guardar. Fido, o cão de guarda. De quem será ? Não sabia se o vizinho da direita ou o da esquerda haviam comprado um cachorro. O da esquerda acabou de acender a luz, e percebo dois olhos que me observam por entre as lâminas da persiana. Acordei os vizinhos, estou envergonhado. A luz se apaga. A dor não me possibilita dirigir com os dois braços, mas mesmo assim dou partida no carro e vou arrancando suavemente, Fido corre e acompanha impotente o movimento do carro, latindo até desaparecer lá longe, atrás de tudo. Aprendo em um segundo a dirigir com uma mão só, com a mesma mão trocar as marchas : vou pelos quarteirões procurando um oásis onde possa me refugiar, sei de uma praça, preferida de casais de namorados, deserta à essa hora da noite e nesse dia da semana ; há uma torneira onde posso me limpar e até mesmo beber um pouco de água. Estaciono e vou andando silenciosamente em direção à torneira, abaixo-me, vou beber o primeiro gole, algo me pegou na perna, na perna direita, perdi o equilíbrio, estou urrando de dor. É Fido, me achou, cachorro danado ! Caimos e ele tenta arrancar a minha perna, caímos, estou girando sobre meu corpo como dança de São Vito, ataque epiléptico de cachorro que parece epiléptico : soladas, uivos de dor, saímos da calçada, estamos no leito carroçável da via pública. Que me importa que acorde a vizinhança, quero alguém que me salve desse monstro que quer me devorar e que começa pela minha perna ; lá vem o salvador, um carro que trafega do outro lado, os faróis acesos, por favor, nos atropele, passe em cima de nossos corpos e nos mutile de vez,mas o carro não para e sim ! ele me salvou ! Fido larga a minha perna, sai correndo atrás do carro, os latidos altos primeiro e desaparecendo conforme avançam os quarteirões. Sou um anjo velocista que corre em uma Olimpíada não sei quantos metros rasos em frações de segundo, sento-me no banco do motorista, fecho a porta, trava, dou a partida. Não sei como não colidi como um poste, só fui sentir dor quando parei na frente de minha casa. Fido olha-me desafiador : quer entrar ? quer mesmo entrar ? Não vou deixar não! Fido olha também curioso : o que está fazendo aí ? Pergunto-me como algo tão desafiador pode ser tão curioso, e digo a mim mesmo : Fido, vou descer desse carro, vou colocar a chave na fechadura, abrir a porta e entrar como se fosse tudo normal, fique aí do lado de fora, bom cão de guarda, fique bonzinho. Fido, eu sou como se fosse seu dono, me obedeça, por favor. Quando menciono abrir a porta, ele já vem, latindo e pulando, e com a clara intenção de morder. Fecho a porta, respiro fundo, e acho que talvez valha a pena se cansarmos nós dois : quem sabe fingindo-me de morto ele não vá embora ? Paciência, estamos no meio da noite, quem sabe daqui há meia hora, acomodo-me no banco do carro, a perna dói bastante, o braço às vezes me lembra de que está vivo, apesar da dor. Fecho os olhos e deixo o gás carbônico embaçar o parabrisa. Quando fecho os olhos me imagino andando a pé no bairro, com suas casas singelas e suas ruas arborizadas, é noite e o cheiro das plantas recende à rua, ando com liberdade e estou feliz. Escuto latidos ao longe, mas vou em direção à minha casa, e vou sonhando por esse caminho onde encontro corujas andando pela rua, e olham-me assustadas em seu giro completo de cabeça que as faz brinquedo. Penso que vou dormir e descansar, e que amanhã estarei refeito para mais um dia de trabalho, e penso muito nas coisas que amanhã tenho que fazer. Alguém voa por sobre o parabrisas, abro os olhos assustado, foi só o vento que bateu nos galhos da árvore, já amanheceu. Amanheceu e está tudo silencioso. Nenhum latido, nenhuma presença canina. Nada de animais. Antes tarde do que nunca. Saio em farrapos do carro, vou mancando silenciosamente até à porta. Se ele me surpreender agora, posso ficar preso em casa. Mas ao menos estou em casa. Abro a porta, não me importo que a sala está vazia, que o relógio continue em seu tique-taque solitário; todos os dias é isso, o esquecer da vida que flui como um rio que vale a pena, curar minhas feridas doloridas e rezar aos céus para que haja um lugar que nem esse de agora, impuro e imperfeito, com peças faltando, mas meu e preferivelmente longe, longe de qualquer cão de guarda.

 



Escrito por Caio às 11h20
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Mudança do Tempo



Sim, é um pouco estranho,
levantar-se e cumprir o decreto oficial de
atrasar o relógio uma hora,

Pensando que é quase que irônico :
Temos mais uma hora para dormir,
Mais uma hora para viver,
Mais uma hora para mudar,
ou refazer nossos planos,

O sol irá nascer amanhã, à mesma hora.
Mas será mais cedo.
Ainda é tão estranho que a intromissão humana
desse fato,
seja por um simples decreto.



Escrito por Caio às 05h14
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Dark Intervals



Ela acorda e abre os olhos.

Sangue no carpete. O pai morto ao seus pés. A mãe. A irmã e o irmão menor. Todos vieram ao quarto de dormir.
Daqui não sairão. Um espanto esquisito, uma frieza imediatamente esquisita.
"Quem fez tudo isso ?". Anda desviando dos corpos, como obstáculos de desvio já sabido.

Alguém quebrou o espelho.
Um martelo, ou um tiro.

E do outro lado do espelho, lá está ela. Coloca o indicador sobre os lábios. Olham-se nos olhos. "Não precisa ficar espantada. Não conte a ninguém que fomos nós".
Uma voz sem timbre, falando por imagens, pensamentos.

Ela olha todo esse sangue e desespera-se: não sabe o que fazer.
"Calma".

Toma em suas mãos um revólver providencialmente caído no chão,
Aponta-o para si própria, mirando em direção à sua própria testa. Atira.
Uma, duas, três vezes.

Não jorrou sangue. A cabeça permanece onde está. Não foi arrancada. As balas abriram um buraco escuro, entre seus olhos.
Suspiro de alívio.

Como se ela tivesse tomado uma dose de uísque, forte e calmante. Olha para o espelho.
"Agora está tudo bem !" E dão-se as mãos, e as mãos se tocam.

Enquanto isso ouve-se as correntes de uma bicicleta em câmera lenta na rua.
O apito do guarda-noturno.
Mendigos transformam-se em arbustos e cestas de lixo, caprichosamente equidistantes no sentido das calçadas.

Agora ela está acordada e de olhos abertos.
As mãos dadas com aquela do espelho em definitivo.
e elas saem juntas na direção da manhã que vem chegando.



Escrito por Caio às 21h39
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Sequestro





É uma sexta-feira, triste sexta-feira.
Na casa de meu pai o telefone toca.
"Temos seu filho", diz uma voz. "Ele irá morrer se o resgate não for pago".
Apontam-me a arma e minha suposta voz lamenta :

"Pai, ó Pai, não me deixe morrer".
E meu pai morre e renasce, repetidas vezes.
O impulso de morrer gera a energia do renascer.

E meu pai pergunta à voz no telefone :

"Muito bem. O que querem pela vida de meu filho ?"
"Ouro, veículos, fazendas ? Não sou lá muito rico. O que desejam
?"

"Todos os prédios dessa cidade, primeiro."
"Todos os becos onde possamos nos esconder". "O relógio de ouro,
todo o dinheiro que o senhor tem no banco,
o seu automóvel,
e sua tristeza eterna, que será nosso maior prêmio".

"Não tenho relógio de ouro, não tenho prédios na cidade", meu pai responde.
"Os becos onde podem esconder-se são de todos, não só meus.
Não tenho dinheiro no banco, não tenho automóvel.
Tenho só umas moedas, que guardei para um dia que precisasse"

Então batem-me na cara com as mãos,
Socos, pontapés, coronha da arma. E eu grito :
"Pai, Pai, não me deixe morrer !"
"Imploro pela vida de meu filho,
Minha tristeza eterna já é seu prêmio, como querem.
Tenho as moedas e elas estão ao seu dispor.
Por favor, matem-me, mas não o deixem morrer !"

"Então pegue suas moedas, coloque-as em um saco de papel,
Dirija-se à rua que Sobe e Desce, e que Nunca Aparece,
Número um dois três quatro.
Não chame a polícia, não dê a entender que estamos com seu filho.
Se chamarem pelo nome, não responda.
Não chore e nem sorria. É um terreno baldio. Apenas espere.
Lá iremos buscar suas moedas,
E seu filho poderá voltar para casa."

Meu pai, na rua.
Silêncio e olhares cruzados.
Em cada quarteirão, cada esquina.

Silêncio
e mais
Silêncio.

Meu pai, à espera.
Silêncio. Parece uma
estátua de areia à beira da praia.

Caminho por uma rua que vai ao encontro de meu pai.
Tenho ferimentos no rosto, nas mãos, no corpo.
Uma enorme mancha de sangue no lado esquerdo do peito.
Atiraram pelas costas. Mandam-me buscar as moedas.

Mas jamais saí de casa.

Retornamos os dois, e o saco de moedas intacto, em direção da noite.
Não dizemos palavra. Ele ainda não percebeu,
eu estou morto.

O sangue não para de jorrar.
As feridas e hematomas incomodam.
Minhas mãos estão perfuradas, como se eu tivesse sido
pregado em algum tipo de cruz.  Detalhes.

Sexta-feira,
Triste, triste sexta-feira.


(Baseado em tristes fatos reais)

 



Escrito por Caio às 21h56
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Voltamos

 

Estamos no ar, novamente.
Como é bom poder dizer isso.



Escrito por Caio às 21h53
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