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O que é isto?
 
 


The Goodbye Man

Abriu a mala no meio da cama, derrubou todas as camisas do guarda roupa, enfiando nela freneticamente todas as peças de roupa que já haviam se acostumado a ser dobradas. Vou embora! Vou embora ! Não fico aqui nem mais um segundo, vou me embora !

Em um comando invisível e mental, as camisas e as camisetas recolhiam-se aos seus postos, onde parecia que por uma vida inteira, estavam acostumadas a viajar. Já haviam também se acostumado a esse destino randômico, que lhes era comunicado em um gesto, apenas pelo marchar do trem, pelos sons dissoltos dos saguões de aeroportos  ou pela claustrofobia disfarçada do ônibus interurbano. Não há tempo para contar para onde, vou embora, vou me embora !

Ocorreu chamar a camareira :

- Senhorita, senhorita, tome aqui esse troco (estendeu-lhe a mão com umas três ou quatro moedas) e limpe bem esse quarto, não deixe poeira sobre poeira porque eu já estive aqui, já estou farto daqui e vou me embora, viu, vou me embora !

E a camareira, inocente :

- Mas... não foi o senhor que chegou ontem ?

-Sim, sim senhorita ! Mas tudo é tão rápido e eu, eu, eu !!! sou mais rápido do que tudo, sou mais rápido do que todos, cheguei e já estou indo, é tarde, é tarde, é tarde, é muito tarde !!! Já vou embora, sim ?

- Como quiser, senhor. Obrigado.

E ela sai de cena.

Tanto tempo vivido, tanto tempo conjurado, tanto tempo repetindo a cena.
Uma caixa de música que toca constante, a Eternidade parece ser uma melodia conhecida, que de tempos em tempos é repetida. Então ele vai terminando a mala, e vai ouvindo vozes, muitas vozes :

- Já vai embora ?
- Puxa, nem chegou, e eu queria tanto falar com você...pena !
- Para que tanta pressa ?
- Da próxima vez venha para ficar dois dias !
- O senhor disse a que veio ?

Ele fecha a mala, olha debaixo das camas, Abre as gavetas dos criados, não restou nada.
Somente a maldita poeira que nunca dorme, mas essa a camareira há de limpar. Então ele avança resoluto,

Uma última olhada no quarto de hotel agora vazio.

E ele fecha a porta, silencio, e avança para o dia sem olhar para trás.

 

(agradecimentos muito especiais : Fons Rademakers, Jos Steeling)



Escrito por Caio às 19h43
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Impressões de Fevereiro

Ele vivia em uma cidade literalmente deserta,

Cuidando de um bar que tinha janelas foscas que davam para o lado da rua, e através das quais não era possível ver-se as pessoas que não existiam, mas a sombra ou a silhueta de tudo aquilo que estava vivo, tinha duas ou quatro pernas e passava na calçada.

Como a cidade era deserta, ele somente poderia ver a claridade da rua.

Seis horas da tarde, ele ligava as luzes do lado de dentro e punha-se em posição de sentido na porta, esperando que os clientes viessem logo. Estava sozinho e teria que se desdobrar entre a cozinha e as bebidas.

Foi percebendo que seria fácil dividir-se e com o tempo, não mais esperava seus clientes de pé, mas sentado, em uma das mesas, como se fosse um cliente comum, uma cerveja e um copo.

Uma noite (sim, ele fechava o bar e recolhia-se à mesma hora todas as noites) ele julgou ter ouvido o telefone tocar. Uma, duas, três vezes.

"Devo estar doente", imaginou. O telefone insistia.

Era uma grande novidade.

Saiu abrupto de sua cadeira e voou até o balcão, onde o telefone martelava sua campainha eletrônica e quase surda. Tirou o fone do gancho : "Alô,alô ! Boa noite ! Pode falar ! Eu estava esperando mesmo a sua ligação !"

Do outro lado da linha, apenas silêncio. Segundos depois, a ligação caiu.

Baixou os olhos e demorou quase um século para perceber o que ocorrera. Finalmente colocou o fone no gancho.

Silêncio.

O Tempo passou muito devagar, depois daquela noite.

Ele ainda senta-se todas as noites à mesma mesa. Com uma cerveja e um copo. Suspira, na eterna brincadeira de imaginar que aquela noite vai ser diferente e virá alguém. Os copos de cerveja fazem com que ele rápido desista da idéia.

E aí ele pensa : "preciso ir dormir, amanhã é mais um dia". Olha fixamente para o telefone, como se fosse tocar daqui há segundos.

O telefone...nunca toca.

 



Escrito por Johannes Zantwyk às 05h22
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Ao ler as manchetes de jornal e da Internet, muitas vezes fico pensando para onde é desejado que nossas atenções sejam desviadas.
O recente caso Severino é uma pequenina opereta. Claro que o caso não é risível pela própria natureza : revela-se em cadeia nacional e em pequenas e grandes medidas que tipo de pessoa pode assumir a presidência do País e que tipo de atitudes pode esperar-se de tão ilustre personagem.
Mas se me lembro bem, antes dessa história acontecer, discutia-se muito por aí os futuros de Jefferson e Dirceu.
De Jefferson, eu me lembro há 20 anos atrás, quando existia um programa de TV chamado "O Povo na TV" : Jefferson, Ana Davis, Wagner Montes, José Messias... catarse pura, nitroglicerina pura para bombas pequenas e domésticas que explodiam sem fazer qualquer barulho. Passava às tardes, na TV do Sílvio Santos. 20 anos depois, não mudou muita coisa. O mote talvez esteja um pouco diferente.
De Dirceu lembro-me que em épocas mais ingênuas cheguei a votar nele para governador aqui em S.P. Hoje, acho que ele produziria matéria para escrever-se roteiros milionários, daqueles que podem ser filmados em Hollywood. Tenho até um título para um, que posso sugerir tranquilamente : "O Homem que não era".
É terrível perceber que a expectativa é que todo esse "affair" acabe em pizza.
Mas terrível ainda é perceber que a lição que se tira é de que a prova (o fato e ou a matéria) é a entidade menos desejada quando é necessário ou conveniente acusar-se alguém de crime cometido.
Até agora nada se viu de prova. Só um bololô de acusações.
Os pretensos acusados acusadores serão punidos, o partido político de onde vieram será esmigalhado - ou não, talvez a palavra que melhor o descreva seja o adjetivo "reciclável", e é possível até que o Presidente não seja reeleito, terminando assim o ciclo das prováveis punições.
Jamais saberemos a verdade, como alguém que blefa em um jogo de pôquer e esconde para sempre a carta ou as cartas.
Duro de aguentar, liga-se a TV e sintoniza-se a TV Senado. Ouve-se uma voz, sotaque baianês, discursando com toda a retórica, todos os ff e os ss.
Ouve-se os primeiros cinco minutos. E constatamos: "até que o que esse cara está falando é bem coerente !". Olhamos diretamente para a tela da TV e surpresa. é ele, em pessoa, ACM.
Entreolhamo-nos, lívidos de susto e pavor. O pior é que nesse momento, e para essas palavras, somos obrigados a concordar com aquilo que ele está dizendo.
E quando chegamos a esse ponto, meus amigos, é o fim da goiabada.

Escrito por Johannes Zantwyk às 13h23
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