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O que é isto?
 
 


Rocket to the Moon



A tarde já foi embora, a noite chegou e o foguete está aqui, no quintal, estacionado apontando em direção ao céu e às estrelas. Meu pai chega do trabalho contando que a nave russa já está na órbita da Lua, e isso causa grande comoção aqui em casa. A Lua ! Quanto tempo até a partida, contagem regressiva silenciosa. Jantamos, eu, meu pai e minha mãe, sem dizer uma única palavra, e de olho grudado no noticiário da televisão. Na última parte, o locutor conta a história da nave russa, que partiu solitária de uma planície gelada e que faz seu caminho orbital enigmático, até jogar-se contra o solo da Lua feito um suicida. Meu pai quebra o silêncio ao dizer que é impressionante como conseguiram fazer com que as naves tripuladas retornem ao chão, com todos sãos e salvos, sem cair no mar. Após o jantar, meu pai desliga a televisão. Enquanto ainda ouvimos os pratos das outras casas batendo, sentimos o cheiro de carne assada, minha mãe lavando louça na cozinha, o silêncio, que aumenta, um zunir invisível de aparelhos de televisão ligados, sintonizados na mesma novela. O motorista do ônibus, lá longe, na avenida íngreme, pisa nos freios com toda a urgência e esse barulho nos faz entreolhar-nos uns aos outros. Quando ouvimos esse barulho, sabemos que é tão tarde, e eu me lembrarei disso por todos os anos e todos os séculos. Chegou a hora. "Cama, rapazinho", meu pai e minha mãe dizem-me, enquanto olho para o foguete, seu metal pintado de branco apontando imponente para o céu, para os escuro, para as estrelas. Vou rapidamente para o banho, pijama, camiseta, escovar os dentes, e despedidas, de mãe e de pai. "Boa noite", ela me diz com dois beijos, um em cada face, como se fosse a última vez e isso me faz quase chorar. "Os russos chegaram", meu pai pisca um olho para mim. "Boa noite", também me diz, enquanto estende o cobertor, acende a lampadinha perto do criado-mudo, apaga a luz, e silenciosamente fecha a porta do meu quarto. Tenho os olhos fechados, mais abertos desse mundo. E de repente faz silêncio. Muito silêncio. Nesse momento, levanto-me, vou até a janela, abro a janela, tenho certeza de que já estão no sono mais solto. Com os pés no beiral da janela, desatarracho as chaves que prendem a escotilha, abro e vou entrando. Coloco o capacete e aperto um botão, que ligará todas as luzes. Quando está tudo ligado, fecho a escotilha. Amarro meus cintos de segurança e aperto um botão : dez nove oito sete seis cinco quatro três dois um nós temos ignição zero ! Lá vou eu noite afora, ver os que os russos estão vendo ou dizem que vêem, para voltar no começo da manhã, tudo isso sem cair no mar. Eu juro, pai. Sem cair no mar.



Escrito por Caio às 13h07
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Lua Cheia

 

Eu me movimento todos os dias,
e ao mesmo tempo estou sempre parado:

Eu sou como a Lua Cheia,
acima das nuvens que
estão sempre rolando.

 

Outubro, 1978



Escrito por Caio às 23h16
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Low

Cansado de ouvir o silêncio. De vez em quando, anda pelo centro vazio da cidade, e tem a impressão de ouvir um rugido lá atrás, como se a cidade fosse na verdade um motor ainda em funcionamento. É apenas uma impressão. Às vezes com o sol alto, próximo de duas da tarde, poderia jurar ouvir uma ave de rapina piando, busca de alguma presa qualquer no chão, um rato, um coelho, prova qualquer que não estaria sozinho na cidade, não estaria sozinho na vida. Era apenas uma imaginação traindo-se-lhe, e ele se cansou de buscar algum outro sobrevivente ou de remoer suas lembranças enquanto andava pelas ruas. Daí decidiu fazer uma viagem, e não era importante que fosse de carro - pois os que existiam estavam trancados a sete chaves; nem de barco, pois não sabia pilotar. Nem de motocicleta, nem de avião : o caminho tinha que ser feito por suas botas.

Lá foi ele. Cansativo, ofegante, procurando caronas impossíveis, no começo. Depois passou a ser divertido. Perceber que caminhar era uma via pela qual as lembranças se esgotavam e se esvaiam passou a ser o maior divertimento a bordo desse tipo de nave. Não parava, ou quase : apenas para beber água. Comer e dormir ficou lá em algum canto. Ao dia seguia-se a noite, e o escuro não era empecilho para que parasse. Nem o vento. Nem o silêncio. Nem uma chuva eventual. Nem a neblina. Veio a dor nos pés. Percebeu que andando, a dor ia embora, e dessa forma, ele não parava.

Caminhou durante dias seguidos, achando graça das cidades pequenas e abandonadas pelas quais passava e que um dia de vida em um planeta normal, desejou em sonho e em consciência, viver em. Achava graça de tudo : dos postos de gasolina abandonados, do mato invadindo os canteiros nos meios da rua, dos cartazes provincianos anunciando restaurantes típicos e fábricas de doce caseiro. As estradas multiplicaram-se e ele logo chegou em uma grande cidade, ansioso por novidades e gente. Veio o desespero em primeiro lugar. Assim que percebeu estar entrando em muros altos e cinzentos, as pernas tremeram e os pés ardiam como fogo. Arrastou-se durante horas até chegar a um lugar próximo daquilo que julgou ser o centro da cidade. Quando parou, estava de costas para um prédio antigo e baixo, três andares que tinha jardins imensos outrora bem cuidados. Sentou-se e não resistiu : caiu ali mesmo.

O sono foi na calçada da rua mesmo, em posição fetal. Dormiu dias seguidos, mesmo com muita chuva. Acordou com febre, tremendo de frio. Muito frio. A porta estava aberta, e ele ergueu-se e caminhou lentamente em sua direção. Não havia realmente ninguém, e ele considerou a hipótese de um banho quente, uma cama limpa e com cobertores. Abriu a porta do primeiro quarto que encontrou e entrou. Seus pés eram bolhas vivas, e ele manquitolava como um inválido. Despiu-se e abriu o chuveiro sem pensar muito.

Do chuveiro não saiu água, mas sangue, sangue quente, quase na temperatura de fervura da água. Ele gritou e gritou, sem parar. Depois do susto, veio a náusea e a ânsia de vômito - mas não havia o que vomitar. O sangue quente escorria por todo o seu corpo, e ele tentou ensaboar-se, sem conseguir. Gritou o quanto pode, e se houvesse algum sobrevivente, poderia ouvi-lo do outro lado da cidade. Infelizmente, não havia ninguém. Então, ele fechou a torneira do chuveiro, saiu e se enxugou. E as toalhas brancas e cheias de pó ficaram todas ensanguentadas, como se ele houvesse sido crucificado. O cheiro de sangue ficou no ar.

Ele caminhou até a cama, deitou-se e cobriu.

Veio uma espécie de sono, e ele sonhou. Sonhou que estava em coma, e que podia sentir as luzes do dia, os ruídos da rua, os carrinhos de comida e doces oferecendo coisas para aqueles que vinham visitar os doentes. Sonhou que a fila dos taxis andava morosa junto com o trânsito e com a chuva que caia algumas vezes. Sonhou que seus motoristas faziam graça uns com os outros pelos resultados do futebol. Sonhou que as pessoas andavam naquele hospital numa espécie de procissão, com a cabeça baixa e sem fazer muito barulho. Agora sim, tudo certo, tudo resolvido. Podia dormir até a eternidade, mas jamais estaria cansado de novo de ouvir tanto silêncio.



Escrito por Caio às 16h59
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