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O que é isto?
 
 


Feliz 2006

 

Leitor querido, 

Muito obrigado por tudo.
Que o ano novo possa ser melhor do que esse,
Que a inspiração esteja sempre presente.

Obrigado por tudo,
Até o infinito.

Abraços

Caio



Escrito por Caio às 20h30
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O Último Dia de Cada Ano

 

Deixou-se ofegar por muitos e muitos minutos, quando a subida da rua havia terminado e havia chegado à grande avenida.

Não posso desistir agora, ele pensou, enquanto que com um lado do pensamento, fazia o coração bater mais lento como em um passe de mágica. Com o outro lado, ele olhava os prédios, agora assustadoramente vazios. Ninguém nas calçadas, os relógios digitais funcionando sem qualquer explicação. Eu disse ninguém. Nem as bancas de jornal abertas. Nas bordas dos prédios e das casas mais antigas, acostumara-se a ver papais-noéis em movimento de escalada, sempre diferentes. Não mais estavam lá. O leito da rua, que aguardaria o papel picado dos prédios, estava sujo e empoeirado, como se há muitos anos ninguém houvesse caminhado sobre. Imaginou uma espécie de persistência de visão, como na primeira vez que viu a neve. Por muitos anos ele havia ido passear na avenida, visto e se alegrado com o papel picado jorrando das janelas. Último dia do último mês. Como nos anos que haviam se passado, ele imaginou que choveria. Não haveria dias ensolarados, mas aquela tarde era uma tarde especial e alguma coisa ardia no corpo. Por um momento desejou um copo dágua : imaginou que os farois os seres mais idiotas da história, porque ainda funcionavam, sem haver veículos ou pedestres que os justificassem. Walk, don't walk. Vermelho e verde. Tléc. Imaginou novamente um copo dágua : foi até um desses prédios antigos, residenciais, e abriu a porta como se estivesse entrando em uma caverna. A pele logo arrepiou-se, pois o prédio era frio como uma enorme catacumba, e cheirava a criolina e desinfetante barato. Ninguém na zeladoria. Buscou uma torneira, abriu-a e a água começou a jorrar. As suas pupilas agora eram grandes e escuras. Refrescou-se o quanto pode, matando de uma vez a sede. Lavou a cara. Molhou o cabelo. Para fazer troça, apertou os botões dos elevadores social e de serviço, e eles, estrepitosamente, começaram a mover-se para baixo. Sentiu medo, e fugiu, correu. Fechou a porta de entrada do edifício com um grande barulho. Ninguém acordado no meio da tarde do último dia. Walk don't walk. Em outros anos, ele teria visto os primeiros corredores que davam a volta na cidade chegarem, cruzando uma linha pintada no chão, desfazendo faixas de tecido acetinado no símbolo da vitória. Mas a pista estava vazia. Os carros sequer passavam. E então, irônicamente, sob uma chuva de papel picado imaginário, antes de continuar seu caminho, ele abriu os braços : agora agradecia a multidão, suas sirenas imagináveis, os aplausos, as vaias ou apupos, os rojões de torcida de futebol que não paravam de espoucar : rumo a um segundo de delírio de vitória, como haveria feito em muitas tardes de anos de antes, bem na tarde daquele dia, no último dia de cada ano.

 

 



Escrito por Caio às 20h28
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Imagine All



Poderia ser assim, depois de anos, dizem-nos : vão embora, vão embora, são pobres e não trabalham. Trabalhamos, respondemos. Muito, demais, trabalhamos até perder a conta. Então não os pagaremos, dizem-nos : passaremos fome, passaremos frio, gostaríamos de morrer. Quando nos pagam, o que pagam (se pagam) mal compra um prato de comida, que temos que dividir, mal nos alimenta. O sonho também alimentava, mas à cada noite estrelada ele foi diminuindo de tamanho, ficando cada vez menor. Hoje não mais sonhamos: apenas nos entreolhamos. Viajar talvez seja melhor que morrer. Então embarcamos em uma Kombi, meus pais na frente, atrás eu e meus irmãos. Não estamos alegres nem estamos tristes. Não cantamos canções nem fazemos reza. Deus morreu há muito tempo, morreu com cada um de nós. Afundou na terra seca com cada caixão minúsculo de defunto recém-nascido. Hoje não há mais perguntas : apenas a linha sinuosa do asfalto esburacado. Algumas vezes os buracos terminam, a estrada rola macia como uma serpente, o sol ilumina as janelas, os rostos com os olhos fechados. Vejo a estrada que nunca termina, tenho quatro anos de idade. Estrelas começam lá em cima, o céu vermelho depois azulado. Vejo sua face : seu rosto branco e delicado, seus cabelos compridos e cacheados, suas sombrancelhas espessas, seus olhos doces. Quando você me olha, alguma coisa que estava morta ressucita. Quando você abre seu sorriso, sinto que a vida pode ter possibilidades, de novo. Seus olhos seguem-me, e tento esconder minha figura por entre as árvores que não existiam em minha terra, mas que agora como por milagre brotaram, espécie de floresta pela qual caminho, sua presença é um vento que sopra nas folhas, como nada nesse mundo fosse realmente mau e todos os bebês que tivessem morrido, houvessem voltado à vida, e nunca houvessem realmente sido mortos. Tenho quatro anos de idade. Por um momento, acredito em fadas, posso sentir o perfume que vem de seus cabelos. Quando eu mergulhar nesse olhar, não haverá mais treva, haverá a noite como seqüência do dia, seremos reis, gigantes, por um dia, por todos os dias. Jamais diremos adeus. Quando eu mergulhar nesses olhos, não haverá nunca mais a dor. Jamais iremos embora, jamais perderemos. Jamais nos renderemos. Tenho quatro anos de idade. Mas agora, seus olhos, são faróis no sentido contrário da pista, os olhos arregalados de meu pai, a freada, o barulho, marcas dos pneus no chão, janelas que são estilhaçadas. Kombi girando e tombando sobre si : portas se abrindo, pais e irmãos sendo jogados para fora, choque com a estrada dura, sangue, óleo, água. Depois que o barulho parou veio o silêncio e os gemidos. Meus irmãos : aqueles que não estão mortos, estão agonizando. Os gemidos. Cheiro de gasolina, gasolina vazando do tanque. Meus passos surdos, secos, curtos, ensanguentados : vou até o buraco de onde a gasolina jorra, jogo terra e areia, certeza que nada irá explodir. Eu olho você agora, meus irmãos já dormem todos, meus pais também estão dormindo, silêncio, por favor, não os acorde. Seus olhos são os mesmos, os meus estão mais tristes. A guerra terminou, se você quiser. Eu tenho quatro anos, eu nunca vou me esquecer dos seus olhos. Mas alguma coisa que ainda não sei bem o que é jamais irá viver para sempre. Ninguém me avisou que haveriam dias como esses.

 

 

Para John Winston Lennon (1940-1980), saudades.



Escrito por Caio às 21h02
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