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O que é isto?
 
 


Exílios

Ele olhava para a estrada, o verde silencioso, o céu azul e suas nuvens : sabia que o script desse ato já estava mais do que decorado. Então seria assim como nas outras vezes : uma fuga silenciosa, um desistir de existir, subtração minúscula e muda na contagem de um mundo de anônimos. O silêncio, ignorância das novidades, não ler o jornal, refúgio em casa tranquila de bairro afastado de cidade do interior. Que lhe deixassem em paz, já era o bastante. Sem avisos, não se lhe importariam os avisos. Os dias iriam passar-se assim, ensolarados, as montanhas, o silêncio, longas caminhadas e histórias longínquas. Algumas vezes as nuvens seriam cor de chumbo e ameaçaria chuva no horizonte : nessa hora, recolher-se-ia, devorando pilhas de revistas antigas e novas novidades. Ele diria que o silêncio é de ouro e não ouviria o telefone tocar até que todos lhe esquecessem: iria deitar-se cedo, e surpreenderia-se dentro da madrugada muito fria preparando um chá iluminado pela lua cheia, sem no entanto, conseguir dormir. Tudo isso dar-lhe-ia mais coragem para enfrentar outros tempos, e ele sabia que isso estava ficando crônico. Crônico como um cigarro, que deixara de fumar há tempos. E a Lua cheia seria de uma paz estranha, encarando insônias até raiar o dia por detrás das montanhas. E quando o sol estivesse alto, bem alto em uma quase tarde que não era mais de arranha-céus, ele fecharia seus olhos, deixaria o calor entrar. Quando acordasse iria olhar para todas as flores, retê-las na memória para todo ou quase todo o sempre. Um avião a jato anacrônico furaria o céu naquele momento, e isso somente iria ser percebido de rabo de olho, sem dizer nada. Por isso tudo, o script já estava todo decorado : a estrada, pequenas trilhas, caminhos tortuosos que desembocam em uma pequena casa, ele abre a porta, mais um na contagem, grande surpresa : na mesa grande da cozinha grande lá está ele, um homem, olhando absorto para a tela de um computador, nessa tela ele escreve uma espécie de diário, algo muito estranho, algo que acabou de nascer, assim mesmo, um sonho.



Escrito por Caio às 14h32
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Travelling


Aguarde", ela disse,
"de longe venho lhe ver,"
"Cedo apertaremos nossas mãos". Primeira vez, e que não seja a última.
E ele aguardou. O Tempo foi passando, carregado pelo Tempo.

"Ponha o café no fogo, que já estou chegando", tornou a dizer.
Um sopro de vida varreu a areia das ruas,
e ele olhou para o calendário e para o relógio,
esperando ouvir o ruído de alguém batendo à porta.

"Um minuto, que já estou com o pé na soleira da porta", ela tornou a afirmar,
Havia um leve sinal de tensão nessas palavras.
Ele vasculhou as estações de trem, as listas de desembarque nos aeroportos,
os terminais rodoviários, os hotéis no centro da cidade,as caixas de correio,
esperou o telefone tocar, procurou nos hospitais, polícia :

inútil.

Como um atleta em uma maratona,
acossado pela chuva chegando e pela falta de fôlego,
de volta à casa, descobertas :

Cartas são escritas de nós para nós mesmos.
Quando será o dia em que teremos certeza que elas cheguem ?
E quando será o dia em que elas irão parar de chegar,
cheias das promessas que nos fazemos e que sabidamente,
jamais poderemos cumprir ?



Escrito por Caio às 06h59
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