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O que é isto?
 
 


Hello

Ela acordou no meio da noite, como se houvesse uma continuação acordada de um sonho.
Caminhou até o banheiro, abriu a torneira, bebeu água. A noite era muito quente.
Ela molhou as mãos e o rosto.

Quando olhou para o espelho, viu uma menina-mulher na sua frente. Algo diferente do que costumava ver.
Alguém que já morrera, cuja face era branca, lívida, rigor mortis. Cabelos negros.
Os olhos como se fossem de cega. Rigidez cadavérica.

Mas ela não sentiu medo. Ou talvez não se lembre.
Do outro lado do espelho, a menina-mulher mandou lembranças com um esgar de sorriso irônico. Leve sorriso.
O pavor entrou pela porta batendo sem pedir licença, apagando todos os bits de memória.

'Então, como se sente ?' perguntou a menina-mulher, sem mover a boca, com seu sorriso irônico.
'Otima', ela respondeu ; mas não era ela quem respondia, era a menina-mulher que falava pela sua boca emprestada.
Ela perguntou ao seu pavor então se ele poderia abrir um pouco a cortina e a janela, para que ela gritasse.
Mas o pavor era tanto, e tão rigoroso, que não foi possível gritar. 'Eu devo estar sonhando', ela pensou.

Virou as costas e a menina-mulher desapareceu. Caminhou até seu quarto, sua cama. Deitou-se e dormiu. Profundamente, um sonho sem sonhos.

Seu inconsciente registrava lá no fundo, os movimentos da noite.
A menina-mulher então, atravessou o espelho e veio para esse mundo. Flutuou no ar com graça, desaparecendo e aparecendo no quarto.
Caminhou até a cabeceira da cama.

Levante-se. Está na hora.


Março, 2006 - Fotografia de Inês Corrêa



Escrito por Caio às 17h02
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Sombras

 

Súbito ele parou,
e a rua não estava mais vazia como deveria estar.

Ao seu lado, um menino que devia ter uns oito ou nove anos.

Ele olhou, maravilhado - então nem todos haviam desaparecido ! Alguns haviam sobrevivido ! Não estava sozinho, afinal !

Perguntou ao menino :

-Quem é você ?

E o menino respondeu, ligeiro :

- Eu sou uma lembrança. Você sonhou comigo. Pode não estar lembrado, mas um dia, você sonhou.
Foi você que me trouxe para cá. Eu não existo sem você. O dia vai morrer, vai ficar noite e o dia irá nascer novamente.
Quando o dia morrer, eu irei embora.

Quando o dia nascer, estarei aqui de novo, e você não dará pela minha falta.
Poderemos jogar bola, poderemos brincar de figurinha.
Eu posso viver para sempre, e isso depende só de você.

Se você se enjoar de mim, posso desaparecer. Mas voltarei.
Ele deu as costas ao menino e fez menção de desaparecer.

- Ei ! Espere ! Onde você vai ?

Olhou para o menino quase balançando a cabeça.
Vá lá que você não é humano, é apenas uma lembrança, ele disse.

Você pode me dar a mão e brincar comigo. Mas você é apenas uma lembrança.
Se eu enjoar ou zangar-me com você, acredito que você irá embora.
E depois, você volta e continuamos a brincadeira.

Mas eu,
talvez eu não saiba dizer o que realmente sou.
Sinto-me apenas muito parecido com o que você aparenta ser.
E nossa diferença, meu rapaz, nossa última diferença é que quando você enjoar-se de mim e eu for finalmente embora,

Jamais tornaremos a nos ver, e isso independe de quando como e quanto você espera.

 

Fotografia : Sombras, copyright (c) 2005,2006 by Inês Corrêa.
Gentilmente cedida para publicação nesse blog. Muito obrigado.



Escrito por Caio às 12h21
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