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O que é isto?
 
 


Você não entende nada

Telefono a ti, depois de um dia exaustivo de trabalho. 
Não sei exatamente o que mandastes dizer :
Que foi viajar, que foi para debaixo da terra, esqueçam-me, esqueçam-me.
Lembrem sempre de quem eu era, porém esqueçam-me.

Não posso discutir teu direito.

Pensei um dia que estivessemos na mesma corrente. Sorrimos juntos, muitas vezes.Outras, vertemos lágrimas.
Tantas coisas importantes para dizer a todos,
Tanta coisa importante para fazer nesse mundo,
Se foi preciso dizer que foi para debaixo da terra, ou morreu, ou viajou, sei lá,
Não discuto os direitos, apenas lamento.

Tanto que ainda poderíamos fazer por tantos,
Tua presença que falta, a que está debaixo da terra. O Mundo é transitório, todos nós sabemos :
mas não é porque as coisas passam que a gente vai deixar de fazer o que precisamos fazer.

Pelo Mundo, por nós mesmos.

Cada minuto jamais voltou atrás. Não precisa mais dizer que não está. 
Não é preciso dizer quase mais nada : não mais telefono, te esqueço.

Abril, 2006 - Fotografia de
Inês Corrêa 



Escrito por Caio às 23h49
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O Dono da Chuva

 


Ele me contou baixinho, num dia bem distante do meu passado, naquele dia em que dividimos o salão, que era dono da chuva. “Sim, sim e sim. Mas este será o nosso segredo, então.” Ora, onde já se viu alguém mandar na chuva que não tem canto nem beira, num segue caminho certo e não avisa; cai quando der na telha, quando bem entender? Tu num és nem Deus pra botar essa banca toda, ora veja se isso devo consentir, pensei só comigo.

 

Mas cuidei de sua mão e então tocamos uma dança. Eu mostrei a ele como é que as menina dança, carrega a ponta da saia e baila graciosa. Espia. Envolvi-o em passos e cantos-sabiás. Sou teu porto seguro. Atraca em mim.

 

Ele me observou dum jeito que eu nunca vira. Dum jeito que jamais olhou proutra menina. Eu sei. Ele bem me quis que nem o beija-flor quer o néctar. Que nem este nosso sertão doido, que quase morre com o  chão rachado da seca desgraçada, quer a água.

 

Eu firmei meus olhos pra dentro dele e busquei sua alma. Foi de propósito. Este desaforado moleque vai ter o que merece, esta lição. Eu que desde pequenina tanto procurei por ela, rezei pra que ela viesse, implorei que derramasse um trocado de gotas que fosse. Que nada. Pra mim ela não veio, não me escutou. Agora ele me dizia que era seu dono? Que diabos! Morri de inveja.

 

Pois estava feito o mal-feito: se ele era dono da chuva, eu por minha vez, desde aquele dia, peguei pra mim seu coração.

 

O dono da chuva chorou. “Liberta-me, puxa vida, este amor que guardo por ti dói demais no peito.”

 

Choveu durante a tarde, dias inteiros, todas as vidas-amores. Encharcaram casas e cidades, pessoas se desfizeram n’água, foi-se embora tudo que tinha e que não tinha valor. Acabou-se coisa presente na Terra. Foi só uma chuva que veio assim descrente, meio boba, meio besta, e inundou feito maldição; até hoje não se sabe ao certo se foi Deus furioso ou se foi o dono da chuva que chorou e chorou durante anos de tanto amor.

 

(c) 2005- Maria Rojanski . Fotografia de Inês Corrêa.

Nota do Caio :  O texto "O Dono da Chuva" é de autoria de Maria Rojanski, amiga de vida e de literatura, publicado originalmente no blog No Meio do Salão. Decidimos (brincadeira séria) recontar a história original, dando outras cores e enfoques. Mando as duas versões, lembrando que são duas visões e que não existe necessáriamente uma que seja melhor do que a outra. Maria Rojanski. Tenho certeza de que vocês ainda vão ouvir muito (bem) sobre essa moça.

Ótima Passagem a todos. Como é bom estar vivo para ver a outra margem do rio !



Escrito por Caio às 06h40
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O Dono da Chuva

É um velho, barba por fazer branca, terno de linho amarrotado.
Parece cansado ou bêbado. Ou os dois. Dirige-se até mim :

'Minha filha vai-se embora dessa fazenda, estudar no estrangeiro.
Preciso que o senhor faça a escolta. Proteja minha filha. Não deixe ninguém, ninguém mesmo tocar um dedo nela.
Eu lhe pago o que for preciso. Não deixe nenhum vagabundo chegar perto.
Se lhe perguntarem para quem o senhor trabalha, diga que trabalha para o Dono da Chuva.'

Assim, no dia seguinte, vamos embora. A filha vai em uma carruagem puxada por cavalos brancos. Enormes cavalos Um cocheiro.
Eu não consigo ver os olhos da filha. Parece que há um véu.
O velho beija sua filha. Consigo ver os olhos marejados do velho.
Ele aponta para o céu, as nuvens se afastam. O sol por elas entra. A carruagem então começa a fazer sua estrada.

Às vezes vou à frente, indicando o caminho. Outras vou atrás, na retaguarda.
Quando olho para trás vejo nuvens carregadas no céu, água desabando.
Quando percebo, a terra está sendo lavada e tudo está cinza. As folhas, verdes. Os pássaros, em pânico. Ou quietos, assustados.
Penso que tudo isso deve ser obra do Dono da Chuva.

A estrada vai fazendo curvas, descendo montanhas, cada pedaço como se eu conhecesse, mas é possível agora adivinhar cada palmo.
Muitas vezes ando pela vida com os olhos fechados. Os cavalos não se cansam.
Moça enfurnada dentro de sua carruagem não parece também cansar. Em cada légua avançada, as nuvens vão abrindo,
Os raios de sol vão secando a estrada, A grama molhada sibila como uma cobra e cheira, um cheiro forte. Por entre pedaços de rochas e de montanhas, consigo ver a linha do horizonte lá longe.
As nuvens avançando para o mar, isso tudo deve ter o dedo, o dedo do Dono da Chuva.

Então chegamos à praia, ao porto, à espera está o navio que levará a senhorita para o estrangeiro.
O cocheiro abre a porta da carruagem, a senhorita desce.
Ouço um sussurro que agradece. De nada, senhorita. Não há de quê.
Os homens levam sua mala para dentro do navio, e como se flutuasse nágua, ela sobe as escadas.
O navio apita, recolhe a âncora, e parte.

Na saída da baía o céu clareia e o sol aparece para se despedir.
Sete arco-íres aparecem no ar,
Sete túneis que o navio atravessa. Quando passa pelo último, vagarosamente, apita uma última vez,
antes de desaparecer no horizonte,
E no momento seguinte só vejo o horizonte, o silêncio, as gaivotas na água.

'Pronto,senhor' , penso, enquanto vou caminhando até meu cavalo.
'Pode pagar minha prenda'.
'Sua filha, embarcada. Tudo bem, tudo tranqüilo. Vagabundo nenhum pôs a mão. O estrangeiro deve ser um lugar bem longe.'
As nuvens vão se arrastando enquanto vou subindo, lento, essa serra.
Engraçadas as viagens de volta, bem mais difíceis do que as de ida. A água cai, impiedosa. Meu chapéu encharcado.
A água lavando minha cara, como se eu estivesse chorando. Tão irônico,
Quando é possível pensar que tudo isso só podia ter o dedo do Dono da Chuva.

Fotografia de Inês Corrêa



Escrito por Caio às 05h08
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