XML/RSS Feed
O que é isto?
 
 


Avoriaz


"Caballo" - Gruta de Altamira, Espanha.

Não sei quem sou. Não sei se me escutam. Não sei se faço barulho ou se podem entender meus pensamentos ou minhas palavras, ou o que entendo o que deva ser.
Tudo o que vejo é uma bonita paisagem.
O sol nasce na minha frente. Quando vai embora, está às minhas costas. Às vezes o tempo é muito lento. Outras vezes sinto apenas a velocidade das nuvens acima de mim.

À minha frente, meninos jogam bola :

- Caiu ! Caiu a bola lá dentro !
- Quem vai pegar ? Quem vai pegar ?

Brigas. Brigas. Vá você ! Não, é você quem vai ! Empurrões. Finalmente um menino mais corajoso, faz cara de sério e finalmente decide :

- Eu vou !

Passam-se minutos. Meia hora. Uma hora. Gritam seu nome. Xingam. Fazem troça. Mariquinha, mariquinha. Com o passar do tempo, entreolham-se. Já não fazem o mesmo barulho. Na realidade, fazem silêncio. Outro mais corajoso, anima-se a ir buscá-lo.

- Não vá ! Não vá !

Avança alguns passos, cego pelo contraste entre a luz do sol e o escuro. De repente, muda de idéia, vira as costas para mim, e fala para o grupo:

- Vamos buscar ajuda !

E vão embora, camisetas sujas, pernas,braços e joelhos arranhados. As nuvens passam. O silêncio fica maior.
Às vezes seria possível ouvir o vento conversando, alguns de seus passageiros.
Anoitece. Amanhece de novo. Anoitece de novo. Sol. Sol e noite. De novo e de novo.

Um ônibus, excursão, turistas. Descem todos para aproveitar a paisagem. Homens, mulheres, filhos, filhas. Uma menina de uns dez meses, engatinhando. Tem cabelos claros que refletem o sol, tem olhos cor de azeitona verde, que investigam o mundo. Estendem uma toalha no relvado, comida, bebida, conversas. Ela brinca com as flores, persegue formigas.
Uma voz inaudível é ouvida, o bebê desaparece na sombra.
Os homens e as mulheres, e suas crianças recolhem suas bagagens. Máquinas fotográficas, sacolas de lanches. O ônibus arranca.

Passam as nuvens. Na sombra, a paisagem ouve o bebê chorar.

Silêncio.

Pelo campo, pela paisagem, o casal corre. De mãos dadas, abraços, beijos. Rolam no chão. Risadas, gargalhadas. Levantam-se. Ela o empurra e começa a correr.

- Morrerias por mim ?

Rindo, rindo muito, ela dispara por caminhos invisíveis. Finalmente entra na sombra.

- Venha me pegar !

Ele sorri. E desaparece na sombra.

Quem eu sou ? Não sei quem sou. Não faço a mínima idéia.
À minha frente está a paisagem, acima de mim as nuvens, dentro de mim vozes, sussurros, zunidos.
O tempo irá passar, as noites virão, os dias irão aparecer no horizonte. Companhia mais constante : o silêncio. Acima das nuvens, acima do céu, do sol que nasce à minha frente e morre, trás de mim. Acima das vozes que me povoam, da luz e de sua sombra.

Estou apenas esperando.  

 



Escrito por Caio às 10h12
[   ]




Cinema das Estrelas


"Cinema em Golders Green", intervenção de Johannes Zantwyk

A cidade mais uma vez é vazia e ando por suas ruas; vento soprando, muito frio.
Em outros tempos procuraria um café para um aquecimento momentâneo; não existem mais deles abertos. Não sei o que é mais doído : se o frio, o vento, ou a falta de gente. Não, talvez a falta de gente não seja. Na verdade, é otimo que as coisas estejam assim. Não tenho medo de assalto, ninguém vem pedir dinheiro na rua, as lojas de disco não apregoam o último sucesso do último cantor que viveu apenas cinco minutos e depois morreu. Não preciso mais esperar o ônibus ou o trem, pois sei que eles não virão. Eu precisava desse café.

Vejo um cinema, nessa calçada. Luzes acesas. Lembro-me de haver entrado em um monte deles, nos momentos mais desesperados e tristes de minha vida; lembro-me de haver chorado e esquecido. De outras vezes, já entrei feliz e satisfeito, outras apaixonado, e em muitas vezes, lembro-me de haver simplesmente entrado e assistido ao filme em exibição.

É um desses cinemas onde passam os filmes que os atores representam nus, e fingem dar e receber prazer uns aos outros, uns com os outros. Surpreso, verifico que os cartazes mostram filmes antigos de ficção científica, daqueles do tipo onde a gente pega uma astronave como um ônibus na esquina e viaja pelo tempo e pelo espaço. Pelas frestas da cortina cerrada vejo luzes e sombras em movimento; tento advinhar o que é. No entanto, não há som. O único som que vem da sala, percebo quando entro pela porta lateral é o som de um piano. Um menino toca, magro, espigado, franja quase escondendo os olhos . Parece que o piano não é seu instrumento normal : ele erra muitas notas, mas esforça-se para conduzir a música. Ele olha para a tela, conta invisível as pausas na melodia. Passam a Guerra nas Estrelas, a cena é uma daquelas incontáveis, onde os exércitos batem-se no espaço, com espadas de raio laser. Já sonhei muitas vezes em ter uma dessas espadas e dessa forma, vencer meus inimigos mais frequentes.

Uma menina, cabelos claros e cacheados, bem mais jovem, corre pelo cinema, de lá para cá. Noto que são irmãos: as semelhanças físicas são evidentes. Limpa freneticamente o carpete enquanto tira o pó das cadeiras e corre para trocar o rolo do filme, quando esse termina. Transpira por todos os poros sem nunca esmorecer, enquanto seu irmão tenta extrair muitas, muitas notas da partitura que mal consegue ler. A luz acende e apaga, como se fosse faltar para sempre. Apagou.

O menino para de tocar.
A menina corre para a sala de projeção.

Espera. Fico com as mãos juntas e espalmadas, como se fosse dentro de um templo, e eu estivesse rezando. Fecho os olhos, pressa nenhuma de sair e de encontrar-me de novo com o frio. Lembro-me que esperar dentro de um cinema era uma das piores coisas desse mundo. O filme nunca começava, ou era o projetor que quebrava e que nunca sabiam consertar; as luzes acendiam-se. Ia demorar um segundo ou um século. E não dependia da gente.

Agora, acendeu tudo,

E a nave Discovery, de '2001', apareceu na tela, enquanto o piano permanecia silencioso.

Ouvi o menino, irritado, para sua irmã :

- Viu o que você fez ? Viu o que você fez ?

E sai da sala, resmungando coisas que não consigo entender. A menina, silenciosamente, senta-se no chão da platéia. E chora. Chora, Chora. Cabeça afundada nas mãos juntas, ouço seus soluços. E soluça alto, enquanto a nave avança pelo infinito.

Imediatamente sei que a sessão terminou. O filme pode continuar, mas a sessão está terminada. Levanto-me e sei que não tenho que estar mais aqui. Afago seus cabelos cacheados :

- Vamos, não chore, está tudo bem agora.

Inútil. Ela não consegue parar de chorar. Vou andando em direção à saída. Quisera encontrar seu irmão. Quisera abraçá-lo também. Mas não faço a mínima idéia de onde ele se escondeu. Sei apenas que daqui há pouco, o choro vai parar e a música vai tocar, e embora pareça que as primeiras notas tem gagueira, o eco do piano vai soprar junto com o vento gelado na noite, enquanto os heróis partem para o infinito...

Vou andando pela rua escura, olho para cima.
Depois das nuvens, as estrelas apareceram.


Maio, 2006

 



Escrito por Caio às 15h20
[   ]




Feliz Cumpleaños

 

Apresentamos hoje o trabalho de uma grande amiga : Leda Garrafa, escritora, poetisa e ficcionista argentina.
Seu trabalho tem um "punch" comparável a grandes feras que esse grande país-irmão já produziu : Borges, Cortázar, Sábato... Segue uma amostra do talento indiscutível dessa grande escritora.

E aproveitando : Leda, um grande abraço pelo aniversário : Feliz Cumpleaños ! Salud !

 



Escrito por Caio às 19h52
[   ]




Amanda



Por Leda Garrafa

Amanda ama decir y contar. Ama, por lo tanto, la historia de los pueblos originarios en los que se resalta esta habilidad, que hacían competencias y valoraban el don de dominar la palabra. Sucede que, la palabra, ondea en la sala donde recibe a sus clientes y la reviste de maravillosas cosas. Nadie necesita entrar ni salir del pueblo para ver el mundo en un abrir y cerrar de puertas. Amanda jamás prepara lo que va a decir, ella afirma que “la palabra que quiera ser oída saldrá de su boca”, que “hay algo vivo en ellas que determina que quieran tomar cuerpo o, mejor dicho, voz”. Algunos la acusan de loca metafísica, porque consideran que en la filosofía de Amanda, las palabras son como espíritus que deambulan por todas partes con incierto destino y luego, o encarnación o posesión, se hacen oír por medio de su voz. Es cierto que la voz de Amanda encuentra multitud de matices. En ocasiones, es filosa y hace que se le paren los pelos al más tranquilo y otras, es tan sedosa que te lleva hasta el borde mismo del precipicio de los sueños. Desde hace un tiempo, en la sala, se reúne toda la juventud de Los Menucos, también algunos preadolescentes ansiosos. Permanecen en silencio algunos instantes y luego, silenciosamente, comienza a circular una lapicera a la que parece no terminarse la tinta y trozos de papel blanco.
Casi sin hacer ruido, todos se levantan de los bancos, arrojan en un cesto limpio los papeles, sin apretarlos y retornan como si nada hubiera sucedido a su idéntica expectante postura.
Cuando Amanda llega, entra desde el fondo por el pasillo que queda en medio de la sala, lo que hace pensar en una iglesia de algún extraño culto, puesto que no hay imagen ni oraciones. Algún regocijo interior trasmuta las caras mientras Amanda, simplemente, se sienta evitando arrugarse la ropa.
El ritual comienza con el primer papelito y no acaba sino después del último. Cada papelito tiene escrito ( o dibujado) algo: una palabra, un nombre, una frase, un objeto, una flecha…Amanda los integra límpidamente en un relato. Esto los hace felices. Una vez al día, son uno solo, construyen algo juntos, se entregan a la fantasía. Por eso Amanda es como un semidios o un hada. Por eso acuden a entregarle sus señales. El secreto es que nadie es discriminado, negado ni ignorado. Los analfabetos hacen un dibujo, los mancos, un signo con la lapicera entre los labios, los bajitos escriben en el piso, los ciegos hacen una marca, los sordos esperan que ella muestre su propio papelito, los mudos, se hacen escuchar por su boca. 
Una tarde se mostraba distinta. No se sabía bien qué, pero algunas señales en el cielo hacían suponer que ocurriría algo diferente e inesperado (aunque se esperaba, porque se sospechaba en el ambiente).
Amanda ingresó impávida, parecía ser la única no enterada de la diferencia. Caminó en silencio y sigilosa sobre la alfombra cargada de polvo que se extendía al medio de la sala. No respondió a las miradas que esta vez, manifestaban un dudoso regocijo. Se mostró tan lenta como siempre, y apasionada con la palabra, tal era su esencia. Ya todos habían colocado su papelito en el cesto limpio, seguramente con la cotidiana actitud respetuosa del ritual.  
Inició su recorrido verbal. Alguien había escrito “sudor” y maravillosas proezas habían ocurrido en el imaginario de todos secundando el ritmo de la narración improvisada de Amanda. Otro papelito decía “puente”, lo que la llevó a pensar en unión, ayuda, disposición, tornando la historia de aventuras en idilio. La mano izquierda de Amanda se hundía cada vez más en el cesto de la forma acostumbrada. Y su boca, no demoraba en hacerse eco de esa palabra que no alcanzaba a leer, siquiera con conciencia inusitada. Amanda atravesó “colinas”, encontró “conejos”, usó una “galera” para dar solución a sus “problemas”, comió “cordero” mientras la rodeaban “mariposas” y un “pato” se hacía oír a su alrededor. De pronto, la cara de Amanda se transfiguró. Todos entendieron que había ocurrido aquello que esperaban, pero todos ignoraban de qué se trataba. Amanda mantuvo el silencio hasta llevarse la mano al rostro, deslizarla con fuerte angustia sobre sus ojos y nariz y hundirla en la boca para morderla con mezcla de enojo. Se despegó del banco con una lentitud distinta y atravesó la sala con el cuerpo semidoblado, como si una sorprendente vejez la hubiera tomado por la espalda y hecho prisionera sin que mediara discusión ni resistencia. Verla era tristísimo, pero lo realmente intolerable era la sensación de incertidumbre. ¡y la frustración, dios mío! La terrible, pesada, chafante, nauseabunda frustración de la historia interrumpida de golpe, abortada, desvanecida en el aire después de tocada la cumbre con el verbo. Se anudaron todas las gargantas, y estaban a punto de estrangularse con la última palabra dicha por Amanda. ¿Alguien habría escrito un insulto contra su madre?, ¿un enemigo secreto habría usurpado este espacio para revelarle una verdad enmudecida a través del tiempo?, ¿un enamorado cansado de esperar respuesta la habría amenazado con matarse?…quizá simplemente, Amanda se había descompuesto. Nadie sabía su edad, pero no era una niña. ¿estaría embarazada y no había querido compartirlo con nadie?
Los rumores comenzaron a ganar terreno sobre la alfombra recién pisada por Amanda y a esparcirse por toda la sala, a la altura de las rodillas. Se movían como pequeños remolinos que quedaban encerrados en los distintos grupos de gente. Cipriano era casi un niño, por eso la situación se le grabó con tanta fuerza, por eso la recuerda como los pueblos originarios repiten sin duda y sin tregua sus mitos. Él intuyó que algo había ocurrido en ese momento, que no era el desenlace de nada…se levantó despacito del banco y sin que nadie atinara a observar lo que hacía, levantó en su mano el último papelito recogido por Amanda y que quedara apenas apoyado en el borde del cesto. Y descubrió lo miserable, lo inaudito, la causa de la actitud de Amanda y el origen del fin de esa sucesión de inolvidables tardes que se hundirían en el cemento rutinario. Calló porque  no había lugar para palabras, volvió a tirarlo en el cesto, como si tuviera que desprenderse de algo maligno y como había aprendido de Amanda. Se solidarizó con su infortunio que era de todos. Y no olvidó jamás que alguien, alguien ruin y tendencioso, intrigante y dañino, había dejado el papelito…vacío, entregando a los demás solo silencio.



Escrito por Caio às 19h42
[   ]




Depois da Segunda-Feira


"Santuário", intervenção de Johannes Zantwyk

Procuro meu cadáver.
Procuro meu cadáver, não vejo cadáveres.

Vejo lápides de túmulos, escritos distorcidos.
Continuo inutilmente procurando meu cadáver e outros cadáveres.
Não posso ver nada. Somente pisar nas lápides dos túmulos. A procura será contínua. Interminável.
Lápide após lápide. Visíveis e invisíveis.
Nunca esqueceremos.

Nós somos os mortos depois dessa segunda-feira.


Maio, 2006


PS - Augusto dos Anjos : muitos anos-luz à frente de teu próprio tempo...



Escrito por Caio às 21h17
[   ]




Segunda-Feira


"The Burning Bus" by Johannes Zantwyk

 

Flocos. Flocos transparentes, não para de chover. Como uma espécie de nevada.

Pessoas apressadas, para lá e para cá. Pacotes nas mãos. Poderia ser Natal.
Flocos. Flocos transparentes. Cuidado para não se cortar.
Cuidado ao andar na rua. Cuidado, os flocos que caem do céu, espalham-se pelo chão, e fazem escorregar.
Por qualquer coisa a cor vermelha.

Subindo a rua, as pessoas estão subindo a rua.
Não é melhor andar à pé. Não é melhor andar de carro.
A melhor coisa a fazer é chegar em casa e não cair nas mãos deles. Tudo sob controle, tudo sob controle.
Cuidado para não escorregar. É possível cair e cortar-se.

Não é Natal. No entanto,
A cidade está pintada de vermelho.

Maio, 2006

 



Escrito por Caio às 06h07
[   ]


[ ver mensagens anteriores ]

 
Histórico
  01/05/2009 a 31/05/2009
  01/12/2007 a 31/12/2007
  01/11/2007 a 30/11/2007
  01/10/2007 a 31/10/2007
  01/09/2007 a 30/09/2007
  01/07/2007 a 31/07/2007
  01/06/2007 a 30/06/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005


 
Outros sites
  Inês Corrêa
  Pesca Cultural
  Vindaloo
  Acredoce
  Luli Rojanski
  Adrian Belew Blog
  Mobilefest
  Mariana Baldin
  Baunilha
  Paisagens da Crítica
  Conversa com meus Botões
  Neide Rigo
  Lesmadesofa
 
Votação
  Dê uma nota para meu blog