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O que é isto?
 
 


Crisálida



Havia dirigido muitos e muitos quilômetros, depois de um dia fatigante de serviço.

O sol da tarde cegava-lhe as vistas, e ele procurava uma rádio no dial, sem conseguir. Os locutores das rádios esganiçavam-se ora em diálogos impossíveis, quisera que fizessem esquecer os diálogos com os clientes do dia, os compromissos apertados da semana, clientes clamando por serviços sem pagar. Músicas tentando ser engraçadas, comprou uma garrafa d'agua de um menino de rua que vendia em um cruzamento. "Arrisco minha vida, decerto, mas morro sem sede", pensou irônicamente enquanto fechava os vidros do carro sem ar condicionado. O farol abriu, ele arrancou rapidamente, havia achado um concerto de Schumann, desligou o telefone, pensando que eles não pagariam suas multas, caso os guardas flagrassem-no ao aparelho, enquanto dirigia. O concerto encaminhava-se para o movimento final, e ele abriu a porta da garagem de sua casa com o controle remoto. Entrou e desligou as luzes. Pegou a pasta de trabalho e o paletó, subiu as escadas - silêncio e bagunça de todos os dias, brinquedos espalhados pelo chão da casa, tv ligada, últimos programas infantis da tarde sem espectador. Desligou o aparelho. Foi cambaleando para seu quarto, mar de luzes acesas, afrouxou a gravata, jogou longe o paletó e a pasta; colocou cuidadosamente o computador em sua pequena mesa de trabalho. Tira os sapatos.

Desmaia-se na cama de casal, um pé de sapato caindo lentamente, depois um outro. Sono sem sonhos, sono agitado, pedaços de vozes, sentimentos exasperantes, delírios. A mulher e os filhos não tinham voltado. E ele estava solenemente desmaiado em sua cama, depois de um dia cheio. O cérebro fervilha, personagens vem e vão, e ele não viu nada acontecer. Não viu a grande noite chegar. Não viu a mulher e os filhos não chegarem. Não viu o ruído dos carros na rua ser substituido pelos grilos e pelo coaxar dos sapos. Não viu que não chegavam, mas que de alguma coisa haviam fugido. Não viu os clarões à noite, o espoucar das bombas, como se fosse festa no meio do ano. Estava preso em seu sonho e nas seqüências dele, onde tudo acontecia muito rápido, milhares de pessoas tocavam-no com as mãos, cada face, cada expressão, cada palavra de alento, que nunca mais ouviria. Uma porta trancada, pensamento inconsciente : 'devo estar perdendo algo importante'. Não viu nem ouviu os aviões militares passando, rádios e televisões em seus matraquear insistente : fujam, fujam, fujam. Apenas sonhava como se todos os sonhos de todas as pessoas do mundo pudessem estar contidos dentro de sua cabeça, e alguma coisa realmente poderia mudar. Uma lágrima escorreu pelo rosto, depois uma segunda e uma terceira. As lágrimas transformavam-se em fios brancos, quase invisíveis, esquisitos, uma espécie de teia de aranha, algodão doce. Essa teia naturalmente foi crescendo com as horas, primeiro formando um capacete pelo qual ele poderia respirar , depois cobrindo todo o seu corpo.

O restante, ele não viu. Não viu sua mulher nem seus filhos perecerem. Não viu cidades inteiras transformadas em montes de escombros. Não percebeu que as rádios e as televisões não mais matraqueavam. O único som que vinha delas era o da estática, e prenunciava a morte, e a morte era o silêncio. Mas o que lhe importava ? Estava confortável em sua alucinação de milhões de frames por segundo, deselegantemente vestido em seu invólucro de teia de aranha. Não era necessário comer, nem beber, nada : durante centenas e centenas de anos permaneceu imóvel, deitado naquela posição, como um faraó ou parente.

A únicas coisas que sobraram de um mundo antigo tinham sido o dia, a noite, e ele, que respirava lento dentro de seu casulo.
. Um dia, eles chegaram. Tinham dedos enormes, longuilíneos, membros que pareciam de insetos, olhos negros enormes, íris e pupila iguais. Murmuravam algo que talvez pudesse ser animado. As pontas arroxeadas dos longos dedos iluminavam-se de vez em quanto, em milhares de sentidos, e eles percorriam invisivelmente o casulo, como querendo serrá-lo.

Pacientemente, o casulo foi aos poucos removido. E o que um dia tinha sido um homem e tinha tido um nome, acordou. Acordou sem tempo de sentir medo, sob o olhar curioso e benevolente de seus pares. Era noite, eles afastaram-se, e deixaram que ele tomasse seu caminho, olhando para milhares de estrelas lá em cima...

Gonçalves-MG, Julho 2006



Escrito por Caio às 11h27
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Time Out

Era mais ou menos anunciado,
mas esse blog sai de férias durante o mês de julho.

Espero voltar em breve, com o peito mais cheio, mais histórias para contar, e o tempo mais firme.

Obrigado, abraços.



Escrito por Caio às 05h45
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