Eduardo
Embarcamos no avião, nós e nossos paraquedas. É uma noite cerrada, faz muito frio, venta muito. Nunca senti tanto medo.
Somos muitos, chama-nos legião. Não tenho armas, tenho um caderno e algumas canetas. Saltamos, no escuro, na ausência de nuvens. Nunca senti tanto medo. Nunca senti tanto medo.
Vamos cair perto de uma estrada de terra, recolhemos às pressas o que é possível recolher. Vamos andando depressa, marchando em direção de um alojamento amigo. Cada passo pesa muitas e muitas toneladas. Chegamos, cansados, sedentos.
Desmaio em uma cama improvisada. Vestido como saltei. O alojamento é escuro, os barulhos da noite são de assustar. Nunca senti tanto medo.
No sonho ele é um menino, um menino magro, sujo, com os cabelos lisos. Na sua lingua indizível ele me conta que é meu filho. Avança em minha direção para dar um beijo no meu rosto. Segura meus braços com suas mãos cheias de terra. E quando ele me olha com seus olhos escuros eu sinto muito medo. Nunca senti tanto medo.
Acordo com um grito. Foi um sonho, passou.
A estrada é sangrenta, muitos de nós ficam pelo caminho. Nunca senti tanto medo. Há gente que nos persegue, escondida atrás de nossas sombras.
Caminhamos muitos e muitos dias. Nunca senti tanto medo. Vila destroçada, casas destruídas. Morte por todo lado. Sinto muito medo. Sinto raiva de mim pelo medo que é o único que consigo sentir.
Sobreviventes, surpresa : lá está ele, o menino do sonho. Meu filho. Sua lingua indizível. Aproximo-me dele, seguro suas mãos. O que é que aconteceu com seus pais, menino ?
Ele me olha com toda a tristeza do mundo. Com a ponta do indicador direito percorre toda a extensão da garganta. Há lágrimas nos olhos, nos dele e nos meus. Não será necessário dizer mais nada.
Eu sou o morto. Nós somos os mortos. Nunca senti tanto medo.
Agradecimentos muito especiais : Maria Rojanski
Escrito por Caio às 20h14
[ ]
|