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O que é isto?
 
 


A falta que ela me faz

No princípio era verbo, as mensagens eram calorosas e frequentes. Todos os dias, descia à portaria do prédio, onde o porteiro sorridente me entregava a correspondência do dia : cartas e cartões postais. Ligava meu computador e logo ouvia o beep do programa de correio eletrônico, avisando que chegavam novas mensagens. Sim, tudo contado, tímidamente em primeiro lugar, depois ao decorrer das semanas, já velhos camaradas. "Tenho vergonha de dizer minha idade", escreveu, de Paris. "Não há por que ter vergonha, vergonha de quê ?", respondi com os olhos na direção de Praga. "As idéias não tem idade cronológica definida", acrescentei, imaginando que o trem dirigia-se agora para Varsóvia, e que nesse final de ano, as paisagens seriam gélidas, enquanto que aqui nessa cidade, tudo era calor e chuva. Quando finalmente confessou-me a idade, imaginei que podia ser minha filha, ou mesmo minha neta, e só imaginei, não disse nada. Apenas retruquei, no caminho de Praga até Katowice, "tenho tantos anos de idade". Nesse momento eu imagino que as mensagens, as cartas ou os cartões, cessem para sempre. Para minha surpresa, Dresden responde-me afirmativamente, apontando um paradoxo curioso : "somos parecidos. Não aparentamos a idade verdadeira que possuimos". O que deseja, senhorita ? Enquanto penso em Leipzig, imagino que deva estar andando pelas mesmas ruas e caminhos que o velho Johann Sebastian Bach. Todas as noites tenho insônia. Não consigo fechar os olhos. Ligo então o computador para saber o que está acontecendo no mundo. Clique no programa de correio eletrônico, pronto : lá estão as mensagens. Que tanto quer comigo ? Meus cabelos estão ficando brancos, meu pomo de adão mais saltado, pareço um maestro patético regendo uma sinfonia desafinada enquanto que a gaivota das golas de minha camisa bate suas asas e fielmente me acompanha, suor na testa, rumo do sol. Nos raros momentos que a insônia me permite, sonho com ela. Mas como sonhar, se nunca cheguei perto dela, se nunca apertei sua mão ? Como posso sonhar assim ? admirar seu sorriso, seus olhos irriquietos, brilhantes ? E quando olha para mim, quando se dirige a mim, quando sorri para mim, é como o sol houvesse nascido, explosões atômicas de muitos megatons. Dentro de um susto, acordo no meio da noite : vou até a cozinha pegar um copo d água. Ouço o barulho do elevador partindo para recolher alguém que chega tarde. Parou no meu andar, abriu a porta : chega como um espectro, não ouvi nenhum passo. A porta do elevador abriu-se, conteúdo branco como o vazio de uma geladeira. Volto a dormir. Na manhã do dia seguinte, dez horas, mais ou menos, Amsterdam escreve-me : “Sou má, sou pérfida, sou estúpida. Não sei como me suportas”. Penso nessas palavras e respondo a Rotterdam “Não é necessário ter culpa por aquilo que nem seja teu”. Imagino que daqui há pouco ela encontrará uns braços fortes, quentes, confortadores, atléticos, jovens, e esses braços a reconfortarão. Divertimentos de garota, arranje o que fazer, seu velho ! A vida segue, começa a chover na cidade, dias e noites chovendo. Sevilha insiste : “Espero que um dia possamos apertar-nos as mãos”. Acho uma graça infinita e tento responder como uma esfinge, já estamos em Málaga : “Não existem impossíveis. O impossível talvez possa ser alguma coisa que nós mesmos criamos. E se conseguimos criar o impossível, ele não existe”. Penso que apertar sua mão, compartilhar um minuto de seu sorriso, ouvir de sua própria voz o resto dos segredos que não puderam ser confessados nas cartas, ah, isso sim, talvez seja o impossível. Então disse tudo isso para despistar. Chove na cidade. Em um outro momento estamos em uma tarde cansativa de sábado. As pálpebras estão pesadas. Um bom banho para tentar enganar o cansaço. Fazer a barba. Olho as rugas, os vincos, as cicatrizes : o olhar que está perdendo o brilho. Todos os dias perde um pouco. Vou cantarolando uma canção invisível. Quase uma hora dentro do banheiro. A água renovando. Talvez eu possa dormir hoje. Mal ouço o interfone, percebo que o interfone está tocando há tanto tempo, deve ser alguém da portaria do prédio . Alguém tenta falar comigo : o porteiro comunica: uma moça esteve aqui, tentou chamar o senhor, e deixou um pacote. Lanço-me escadas abaixo, correndo feito um garoto : um presente ? Sim, um presente. Dentro de uma caixinha de plástico transparente uma flor e um recado escrito à lápis, letra de criança : vemo-nos qualquer dia desses, um beijo. Então fico olhando a flor enquanto volto encabulado para o elevador, olhar de curiosidade do porteiro. Não paro de olhar a flor. Coloco a flor em um copo com água, para que viva sua vida delicada mais alguns dias : o sono vai e vem, as tardes modorrentas, sem mensagens no computador, com as mesmas cartas, propagandas e contas na caixa do correio, os carros passando em longas filas nas compridas avenidas, um outro dia é o dia de domingo, acordo e observo que algo em mim mudou, algo me faz diferente, algo em mim que não sou eu me faz acordar mais disposto, agradecer a luz do dia, caminhar em direção ao sol, perceber que é possível que eu possa viver eternamente como todo o mundo; acho que esse vai ser um dia lindo, iluminado: não sei ainda o que mudou, se fui eu ou não : acho que entendi todas as mensagens, acho que também todas as cartas, acho que já li todos os livros, esse filme talvez já tenha visto antes ; vou caminhando na direção da luz e os passos são rápidos, muito rápidos, atenção no caminho, até que não seja possível mais perceber o quanto andei e o quanto se anda, até que não seja mais possível saber a falta que ela me faz.



Escrito por Caio às 20h45
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Feliz Aniversário




jz 2006

Dia 17 de setembro,domingo, esse blog completou 1 ano.

Obrigado a todos que visitaram. E a todos que deixaram sua opinião registrada.
Aprendi muito, estou aprendendo muito. Sempre aprendemos.

Abraço carinhoso a todos.



Escrito por Caio às 22h11
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Circe


Antique Spacecraft, intervention by Johannes Zantwyk

Descoberto há pouco tempo, um planeta irmão da Terra. Longe, longe. Do outro lado da Galáxia.
Era como a Terra antigamente. Florestas verdejantes. Rios. Cachoeiras. Água potável e fresquíssima. Terras férteis onde tudo podia ser plantado e colhido.
Era um outro lugar, para onde os terráqueos iriam mudar-se e quem sabe, dessa vez, seriam felizes, sabe-se lá se para sempre.

Ele pilotaria a primeira nave.
Ela ficaria aqui, esperando que ele voltasse.
Ele viajaria milhões de quilômetros e ficaria acordado até que os computadores pudessem finalmente assumir o controle da nave.
Quando isso acontecesse, ele finalmente deitar-se-ia em uma cama cibernética e tomaria uma pílula para dormir profundamente, só acordando quando a nave chegasse finalmente ao seu destino.
Antes desse momento, eles conversavam-se todas as noites, pelo telefone.

Ela esperaria, e um dia, ele iria voltar, e buscá-la.
Então eles se casariam, e ocupariam com seus filhos o novo planeta. Uma casa de madeira grande e confortável, nas montanhas. Fazer amor na cachoeira.
Noites estreladas. A Terra era um ponto distante, brilhante, azul, no meio de tantas estrelas.

As primeiras conversas eram todas as noites.
Depois de semanas, parecia que algo tinha ficado estranho ou errado, mas era só o Tempo.
Ela falava. Ele não respondia.
Muitas vezes o telefone tocava no meio da noite. Zonza de susto e sono, ela atendia.
Não era ninguém. Só a estática. Vozes, como estações voláteis de rádio que passeiam pelo dial, apareciam e desapareciam.
Ou muitas vezes, ela podia ouvir um sinal constante de ocupado, como se a ligação por um momento tivesse sido interrompida. Ela sonhava com ele todas as noites.

Um dia o telefone não tocou mais.
“Ele deve estar dormindo”, ela pensou, e ficou triste. Voltou a dormir.

Finalmente ele regressou de sua viagem.
Agora era um herói. Andava pelas ruas cheio de orgulho.
Eu vou buscar minha noiva, pensou. Algo tinha ficado diferente.
As ruas eram mais sujas e escuras,
As árvores soltavam folhas muito secas. Tocou a campainha.

Atendeu uma menina, sorridente, silenciosa, a quem ele nunca tinha visto antes.
Pegou-o pela mão e fê-lo entrar pela porta adentro.
Subiram escadas até chegar em um quarto. Em seu leito, quase morrendo, uma velha senhora.
Olhos abertos, impossibilitada de dizer alguma coisa que fosse.
A menina fez com que ele encostasse sua mão direita na mão direita e enrugada da velha senhora.

- Ele veio buscar a senhora, vovó, ela disse.

A velha senhora chorou. Uma lágrima desceu pelo seu rosto enrugado.
“Então veio me buscar”, pensou. “Acho que estou pronta”. Fechou os olhos e dormiu profundamente.

Talvez só acordasse quando o novo planeta houvesse chegado. Então ele saiu do quarto, desceu as escadas, abriu a porta, saiu para rua.
Era noite. E ele procurou com um olhar um outro ponto, distante, brilhante, azul, no meio de tantas estrelas.



Escrito por Caio às 16h05
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