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O que é isto?
 
 


Final de Ano

 

Hello,

Queria desejar a todos um ótimo período de festas e um Feliz 2007.
Que haja Verdade e Justiça suficientes para fazer da Paz muito mais do que um isótopo instável produzido em laboratório.
Queria agradecer também a todos pela força e pelo carinho constantes e presentes.

Estamos de férias até Fevereiro. Espero voltar com novidades e com o peito cheio de poesia, canções e histórias.

Um grande e carinhoso abraço a todos.


Caio



Escrito por Caio às 11h07
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Ciclos


"Celeiro"  - intervenção : JZ


Ele voltou caminhando até o celeiro; ponto de partida.

Respirava pesado - o ar estava pesado. Daqui há pouco, a estação das chuvas ia chegar. Era terrível : dias de sol incandescente, daqueles que ardiam nas orelhas, que depois transformavam-se em tempestades terríveis. Várias estações no mesmo dia. O suor acumulado no rosto, as roupas empapadas.

Ele podia ver os espaços vazios nos caminhos da terra ; espaços agora vazios onde haviam brotado plantas e árvores de todos os tipos. Árvores de frutas doces, frutas que acabaram rapidamente, pés de laranja azeda, frutas amargas, outras doces, tudo misturado.


Pelas alamedas vazias, ele lembrava-se das pessoas que, com ele, participaram dessa colheita. A proximidade da chuva, o tempo instável, fez com que fossem embora mais cedo, quando a colheita terminou. Ainda imaginava encontrar algum companheiro tardio, mas logo percebeu-se sozinho.

Foi andando, enquanto imaginava que o terreno era grande, e quando as chuvas tivessem passado, voltaria a plantar sementes de novo.

Chegou ao celeiro, abriu a caixa onde em outro tempo, guardava pacotes de sementes.

Descobriu que não havia nada na caixa, que ela estava completamente vazia.

Uma fração de segundo de desespero tomou conta. Não havia o que plantar ! Como iria comer ? Como faria para alimentar a família, os filhos ?

E os companheiros, voltariam um dia para ajudar-lhe, sabendo que não havia nada na caixa das sementes ? O primeiro reflexo foi correr até o lugar onde guardava as ferramentas. Também descobriu aterrorizado que não lhe restava mais nenhuma.

As portas do celeiro estavam abertas, deixou-se cair de joelhos no chão e sentou-se.

O pio dos pássaros, prenunciando o vento oportuno. O bafo quente carregando a chuva. Os pingos grossos no chão.

Os pingos que caiam no telhado de metal. O vento soprando, agora intenso. Quisera que uma brisa pudesse refrescar, apenas o vento mudando o calor de um lado para o outro. Água caindo quente lá do céu. O barulho da chuva, ensurdecedor. Sentia-se dolorido, como estivesse para morrer. Tapou os ouvidos. Algo que poderia ser uma lágrima contrabandeada cruzou-lhe a face cheia de suor.

Gritou, e o grito foi confundido com o ruído dos pássaros acomodando-se nas árvores, dos animais fugindo da chuva.

A tarde retirou-se, a noite veio em seu lugar. Talvez lá pelas oito e meia da noite, a chuva parou.

Tudo secou rápido. As nuvens caminhando para outra direção, revelaram um céu estrelado. A clemência da chuva fez por alguns minutos o vento soprar rápido e leve, e ele olhou para cima.

Era absurdo, mas o que brilhava lá longe já tinha acontecido há milhões de anos-luz atrás. Curioso, era como as sementes guardadas na caixa dentro do celeiro tivessem ascendido ao céu, todas. Cada estrela era agora uma semente que ele tinha que semear em sua terra. Ele não tinha mais ferramentas. Não importa: bastam as mãos. Não sabemos o que pode crescer dessa semeadura. Talvez isso seja mais eterno do que as laranjas, os limões, as mangas, o milho, outras frutas, outros alimentos. Não sabemos quanto tempo irá durar, não sabemos se existem companheiros que nos ajudarão no trabalho. Temos que buscar do céu, estrela por estrela, semente por semente, e plantar na terra. Se for justo, não haverá miséria, nem fome. Tudo é muito curto, um segundo é um universo que já acabou quando o ponteiro avançou de um ponto a outro no relógio.

Não importa o que aconteça, deve valer a pena.

E além do celeiro, além da terra, existe um começo.

 

 



Escrito por Caio às 10h55
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Soldado Desconhecido



A chuva havia finalmente parado suas manifestações de ira naquela tarde, e ele podia agora sair da estação de Metrô onde havia se abrigado.

A cidade estava vazia : os trens não circulavam, nem passageiros, nem bilheteiros, nem vendedores, apregoando suas barracas portáteis de guloseimas. Vazia significava poder ouvir as luzes do semáforo mudando de vermelho para amarelo, de amarelo para verde em intervalos regulares que mais pareciam séculos para passar.

Ele andava pelas ruas lavadas, às vezes arrancava um cigarro do bolso, acendia-o, dava algumas tragadas e cedo jogava fora. Começou a descer a encosta do vale, em direção à uma grande avenida, e lembrou-se com dor, do tempo em que era menino e que a avenida ainda não havia sido construida. Seu pai o levantava e o carregava em seus ombros aos domingos na direção dos parques, cheios de lagos onde podiam dar comida aos patos e andar de barquinho, ou de gramados verdes onde chutavam bola. O vale era muito verde e subiam, cansados, a encosta, até sua casa, onde um almoço tardio de domingo os esperava. Surpreendeu-se o quão nítida era essa imagem, e sorriu, dor misturada com alguma coisa muito feliz.

Mas agora estava descendo uma rua íngreme, e fazia força para não voar. Lamentou os cigarros fumados. Algo imperceptível fê-lo desviar a atenção. Apurou os ouvidos. Não era possível. De uma casa, à direita, no meio do quarteirão, ouvia-se música tocando.

A porta estava entreaberta e ouvia-se um piano, provavelmente um disco de vinil.

A casa era um sobrado pequeno e o mato havia tomado conta do pequeno jardim. No pavimento de baixo, uma garagem, e sua porta basculante aberta. Havia uma placa, pregada ao poste de luz, ao lado do portão.

Prevemos seu futuro
Venha saber seu futuro
Pagamento após o resultado

Mais abaixo, em letras vermelhas recém pintadas, suficiente para não passar desapercebido e discreto demais para ser notado em primeiro lugar, alguém havia adicionado

Só Amanhã.

A vida mudava de figura, havia um outro sobrevivente. A casa até tocava música, um pouco sombria, suntuosa, ou mesmo lúgubre, sei lá, mas algo diferente do silêncio habitual. Abriu o portão e foi descendo a rampa da garagem. Esperava uma velha; recebeu-o em pé uma moça magra, cabelos negros, olhos quase claros, olhar penetrante. Conduziu-o pela mão, fazendo com que sentassem em uma mesa redonda, com um globo de cristal no centro. Olhou-o bem nos olhos e seu olhar foi estático.

Dois segundos foram suficientes para que ele entendesse que a única atitude cabível era a de remexer nos bolsos da calça e do agasalho, tateando atrás de moedas, que eram colocadas no centro, ao lado do globo de cristal. A moça contou as moedas.

- É tudo isso que o senhor tem ? Não dá para dizer muita coisa só com isso, mas ao menos um ano a gente pode falar, sim senhor.
- Então, comece.

Ela concentrou-se no globo : súbito a voz mudou.
Ele ouviu uma voz gutural dizer que sim, haverá um tempo de solidão. Não consigo ver se dois ou três meses a partir de hoje. Se procura a doçura das coisas, sua busca será infinita e não achará nada; se procura o verdadeiro gosto, é capaz que ache alguma coisa. O senhor será um homem muito rico, consigo ver. Seus inimigos serão aniquilados. (Estranho para uma cidade deserta, ele pensou). E existe ela. Por enquanto o senhor não a conhece, mas ela está na cidade. Ela está enviando sinais...sinais. Está longe e está perto ao mesmo tempo. Não será sua imaginação, ela é real. Excitava-o a perspectiva de encontrar uma desconhecida naquela cidade vazia, e ele estava silencioso, absorto na leitura. Embora o senhor aniquile todos os seus inimigos, terá que tomar cuidado com gestos bruscos, surpresa. Seja cuidadoso no trato com as pessoas e tudo acabará bem. Ela continua dando sinais... sinais. O senhor será um líder, sua palavra será respeitada dentro da comunidade. O que essa mulher está dizendo, ele pensou - na verdade o senhor será nosso líder. Enquanto colocava a mão esquerda sobre o globo, a moça tirou um pequeno revólver do bolso do vestido, e por debaixo da mesa, disparou, à queima roupa : por um segundo ele não sentiu nada, mas algo disse para olhar para baixo, e de repente viu-se esvaindo em sangue. E ela, senhor, disse a moça : ela continua dando sinais...sinais...sinais...



Escrito por Caio às 22h33
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