Sequestro

É uma sexta-feira, triste sexta-feira. Na casa de meu pai o telefone toca. "Temos seu filho", diz uma voz. "Ele irá morrer se o resgate não for pago". Apontam-me a arma e minha suposta voz lamenta :
"Pai, ó Pai, não me deixe morrer". E meu pai morre e renasce, repetidas vezes. O impulso de morrer gera a energia do renascer.
E meu pai pergunta à voz no telefone :
"Muito bem. O que querem pela vida de meu filho ?" "Ouro, veículos, fazendas ? Não sou lá muito rico. O que desejam ?"
"Todos os prédios dessa cidade, primeiro." "Todos os becos onde possamos nos esconder". "O relógio de ouro, todo o dinheiro que o senhor tem no banco, o seu automóvel, e sua tristeza eterna, que será nosso maior prêmio".
"Não tenho relógio de ouro, não tenho prédios na cidade", meu pai responde. "Os becos onde podem esconder-se são de todos, não só meus. Não tenho dinheiro no banco, não tenho automóvel. Tenho só umas moedas, que guardei para um dia que precisasse"
Então batem-me na cara com as mãos, Socos, pontapés, coronha da arma. E eu grito : "Pai, Pai, não me deixe morrer !" "Imploro pela vida de meu filho, Minha tristeza eterna já é seu prêmio, como querem. Tenho as moedas e elas estão ao seu dispor. Por favor, matem-me, mas não o deixem morrer !"
"Então pegue suas moedas, coloque-as em um saco de papel, Dirija-se à rua que Sobe e Desce, e que Nunca Aparece, Número um dois três quatro. Não chame a polícia, não dê a entender que estamos com seu filho. Se chamarem pelo nome, não responda. Não chore e nem sorria. É um terreno baldio. Apenas espere. Lá iremos buscar suas moedas, E seu filho poderá voltar para casa."
Meu pai, na rua. Silêncio e olhares cruzados. Em cada quarteirão, cada esquina.
Silêncio e mais Silêncio.
Meu pai, à espera. Silêncio. Parece uma estátua de areia à beira da praia.
Caminho por uma rua que vai ao encontro de meu pai. Tenho ferimentos no rosto, nas mãos, no corpo. Uma enorme mancha de sangue no lado esquerdo do peito. Atiraram pelas costas. Mandam-me buscar as moedas.
Mas jamais saí de casa.
Retornamos os dois, e o saco de moedas intacto, em direção da noite. Não dizemos palavra. Ele ainda não percebeu, eu estou morto.
O sangue não para de jorrar. As feridas e hematomas incomodam. Minhas mãos estão perfuradas, como se eu tivesse sido pregado em algum tipo de cruz. Detalhes.
Sexta-feira, Triste, triste sexta-feira.
(Baseado em tristes fatos reais)
Escrito por Caio às 21h56
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