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O que é isto?
 
 


Longe do Cão de Guarda

Desliguei o motor e apaguei as luzes. Tudo ficou no escuro. Havia sido um dia muito corrido de trabalho, e as últimas luzes da estrada tinham tido o poder de relaxar, e fazer com que me concentrasse na perspectiva de um banho quente, um copo de leite gelado e um oceano de sono em minha frente. Junto minha valise de mão, algumas pastas e papeis soltos. Busco a chave de casa no bolso da calça : presente. Abro a porta do carro, alguma coisa se agarra ao meu braço esquerdo, enquanto ouço algo parecido com um enxame furioso de abelhas e ao fundo um resmungo irritado. A dor é lancinante, mandíbulas fechadas e o sangue escorre pela camisa em frangalhos : Fido. Se gritar de dor acordo a vizinhança. Não, Fido, não ! Com um pé esquerdo, tento afastá-lo, não posso deixar que engula a carne do meu braço; contínuos pontapés , quem sabe se o acerto na cabeça.; Estou sentado no banco do motorista com a porta semi-aberta e as duas pernas para fora do carro; consigo dar uma solada, e finalmente ele desiste. Desiste não : fechei a porta do carro, a trava elétrica funciona, ele late desesperadamente. Com uma flanela limpo o sangue, descubro que Fido morde como um tubarão. Quase arrancou meu braço, que doi e lateja insuportável. Ele se afasta e para de latir, e percebo que o silêncio faz com que o braço doa mais. Rasgo o que restou da manga da camisa, seria bom procurar uma torneira, água para lavar o ferimento, e se esse cachorro estiver doente ? Ele está doente, e penso em abrir a porta devagar, sem fazer barulho ou movimento, mas ele percebe as coisas no escuro melhor do que ninguém, e volta, correndo e latindo. Retirada estratégica : fecho a porta, ele continua latindo na minha frente, uma fera desafiando. Quem é Fido ? Não é meu, não sei se é teu. Chamo-o de Fido, pois parece fiel ao seu dono, e a tudo aquilo que deve guardar. Fido, o cão de guarda. De quem será ? Não sabia se o vizinho da direita ou o da esquerda haviam comprado um cachorro. O da esquerda acabou de acender a luz, e percebo dois olhos que me observam por entre as lâminas da persiana. Acordei os vizinhos, estou envergonhado. A luz se apaga. A dor não me possibilita dirigir com os dois braços, mas mesmo assim dou partida no carro e vou arrancando suavemente, Fido corre e acompanha impotente o movimento do carro, latindo até desaparecer lá longe, atrás de tudo. Aprendo em um segundo a dirigir com uma mão só, com a mesma mão trocar as marchas : vou pelos quarteirões procurando um oásis onde possa me refugiar, sei de uma praça, preferida de casais de namorados, deserta à essa hora da noite e nesse dia da semana ; há uma torneira onde posso me limpar e até mesmo beber um pouco de água. Estaciono e vou andando silenciosamente em direção à torneira, abaixo-me, vou beber o primeiro gole, algo me pegou na perna, na perna direita, perdi o equilíbrio, estou urrando de dor. É Fido, me achou, cachorro danado ! Caimos e ele tenta arrancar a minha perna, caímos, estou girando sobre meu corpo como dança de São Vito, ataque epiléptico de cachorro que parece epiléptico : soladas, uivos de dor, saímos da calçada, estamos no leito carroçável da via pública. Que me importa que acorde a vizinhança, quero alguém que me salve desse monstro que quer me devorar e que começa pela minha perna ; lá vem o salvador, um carro que trafega do outro lado, os faróis acesos, por favor, nos atropele, passe em cima de nossos corpos e nos mutile de vez,mas o carro não para e sim ! ele me salvou ! Fido larga a minha perna, sai correndo atrás do carro, os latidos altos primeiro e desaparecendo conforme avançam os quarteirões. Sou um anjo velocista que corre em uma Olimpíada não sei quantos metros rasos em frações de segundo, sento-me no banco do motorista, fecho a porta, trava, dou a partida. Não sei como não colidi como um poste, só fui sentir dor quando parei na frente de minha casa. Fido olha-me desafiador : quer entrar ? quer mesmo entrar ? Não vou deixar não! Fido olha também curioso : o que está fazendo aí ? Pergunto-me como algo tão desafiador pode ser tão curioso, e digo a mim mesmo : Fido, vou descer desse carro, vou colocar a chave na fechadura, abrir a porta e entrar como se fosse tudo normal, fique aí do lado de fora, bom cão de guarda, fique bonzinho. Fido, eu sou como se fosse seu dono, me obedeça, por favor. Quando menciono abrir a porta, ele já vem, latindo e pulando, e com a clara intenção de morder. Fecho a porta, respiro fundo, e acho que talvez valha a pena se cansarmos nós dois : quem sabe fingindo-me de morto ele não vá embora ? Paciência, estamos no meio da noite, quem sabe daqui há meia hora, acomodo-me no banco do carro, a perna dói bastante, o braço às vezes me lembra de que está vivo, apesar da dor. Fecho os olhos e deixo o gás carbônico embaçar o parabrisa. Quando fecho os olhos me imagino andando a pé no bairro, com suas casas singelas e suas ruas arborizadas, é noite e o cheiro das plantas recende à rua, ando com liberdade e estou feliz. Escuto latidos ao longe, mas vou em direção à minha casa, e vou sonhando por esse caminho onde encontro corujas andando pela rua, e olham-me assustadas em seu giro completo de cabeça que as faz brinquedo. Penso que vou dormir e descansar, e que amanhã estarei refeito para mais um dia de trabalho, e penso muito nas coisas que amanhã tenho que fazer. Alguém voa por sobre o parabrisas, abro os olhos assustado, foi só o vento que bateu nos galhos da árvore, já amanheceu. Amanheceu e está tudo silencioso. Nenhum latido, nenhuma presença canina. Nada de animais. Antes tarde do que nunca. Saio em farrapos do carro, vou mancando silenciosamente até à porta. Se ele me surpreender agora, posso ficar preso em casa. Mas ao menos estou em casa. Abro a porta, não me importo que a sala está vazia, que o relógio continue em seu tique-taque solitário; todos os dias é isso, o esquecer da vida que flui como um rio que vale a pena, curar minhas feridas doloridas e rezar aos céus para que haja um lugar que nem esse de agora, impuro e imperfeito, com peças faltando, mas meu e preferivelmente longe, longe de qualquer cão de guarda.

 



Escrito por Caio às 11h20
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