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O que é isto?
 
 


O Carnaval das Sombras


"Untitled", (C) Diane Arbus, 1970-71

Nesse momento solene, tudo é muito parecido com o passado.
É Fevereiro, e durante três ou quatro dias, tudo parava.
Pessoas correndo como formigas para as estradas, praias, viagens, acidentes.
Danças, festa. Brigas. Correria. Música martelando os ouvidos.
Letras, versos inimagináveis. Pessoas despidas. Ou pouca roupa. Calor.
O silêncio era precioso. Vinha a chuva, lavava a imaginação, a cidade.
Logo o calor voltava, pegajoso.
No entanto era delicioso andar pelas ruas da cidade deserta. Talvez mais do que agora. Ver o que restou do horizonte, pelo vão do grande museu.

Sentir um cansaço e uma vontade de dormir infindas.
As ruas, o céu, as paredes das casas, os telhados, tudo cor de chumbo. Chuva chegando.

Ando pelas ruas estreitas desse bairro, sabendo que daqui há pouco tenho que voltar, a chuva me pega.
Logo o silêncio é agredido por ruidos, e vou chegando mais perto.

Música alta. Marchas de carnaval. Músicas de carnaval. Um baile !

Parece um galpão de oficina mecânica, convenientemente adaptado para um baile.
Máscaras enormes : rei, palhaço, bailarina, macaco, homem-macaco, mulher-macaco, pirata, tudo pregado nas paredes encardidas... aqui e alí, serpentinas de cores diferentes - jurava que é papel de embrulho, caiam do teto, suspensas - que medo que, como serpentes, comecem a se mexer.

Uma bola, minúscula, bola de futebol, com espelhinhos colados em sua superfície,
presa a um eixo no teto, girando devagar. E músicas, músicas antigas da época em que eu pensava em ser criança, sonhava quando tivesse dez ou doze anos de idade, seria um menino grande, sabido, esperto, estudioso....

Nunca gostei de carnaval.

Para falar a verdade, a música era ensurdecedora.

Ninguém no salão. Ninguém. Como se tudo tivesse preparado e à espera. Iriam chegar os convidados,
suas crianças, seus romances, sua bebida alcoólica, seus dramas, suas alegrias. O Baile aguardava esse momento.

Deitado em um banco, um senhor, barba malfeita de vários dias.
Vestindo branco encardido, camisa listada, e sapatos de sambista.
Um sono profundo. Hálito paralisante. Resmungou um verso bêbado e virou-se para o outro lado.

Antes que acorde, dou uma última olhada, Não quero dançar nem sozinho, daqui há pouco o baile começa,

Vai chover, o caminho de casa. Horas e horas andando.
Antes que acorde, vou andando, sem olhar para trás.

Vida estranha : o mundo pode até passar por um apocalipse,
E no que restou dele andamos como sobreviventes.
Mas é tão engraçado,
apesar de tudo haver se acabado o Carnaval não acaba.



Escrito por Caio às 15h05
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Silêncio

 

Não estou brincando quando lembro que estou em um deserto.
Ninguém, nenhuma alma. Tantos e tantos dias.

Um rádio portátil que funciona na boa vontade das pilhas... A diversão das noites frias e escuras é
girar o dial em busca de uma estação.

Consigo escutar vozes,
vozes que estão falando
em uma língua qualquer
que não sei o que é

Vozes como estrelas que se apagaram já faz muito tempo
e cujo brilho está chegando agora,
nesse planeta.

Vozes com palavras desconhecidas contando histórias de filmes
que eu nunca vi e que me fazem dormir.

Histórias que me conto à noite
quando a cama é maior
e mais fria,

Um dia as pilhas se acabam,
Mas juro que o que eu queria mesmo
era encontrar algum Wolfgang Amadeus 
perdido no meio da estática desse espaço.

Agosto, 2007



Escrito por Caio às 09h12
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