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O que é isto?
 
 


Temporarily Disconnected



Metropolis by Fritz Lang



No sonho automático de seu sono automático, ela sabia que seu botão liga-desliga estava inativo e que seu defeito de fabricação faria com que o botão fosse milagrosamente acionado todos os dias, três e vinte da madrugada. Quando isso acontecesse, sempre de forma involuntária e à mesma hora de todas as noites, ela ergueria sua coluna vertebral metálica da cama em um movimento perpendicular que não dura muito mais do que uma fração, centésimos de Tempo. Abriria os olhos como quem acorda de um sonho ruim, sentiria um gosto amargo e corrosivo na boca metálica e haveria de pensar : "esse óleo que lubrifica minhas entranhas anda cada vez mais ácido". Então haveria um lamento, seus olhos metálicos pensando que não deveria ter acordado, e que o defeito de fabricação é horrível. Andaria com seu cérebro até o começo do dia, quando o café dos humanos tem que estar pronto, o bolo, as frutas - laranja, nessa semana. Haveria um outro lamento, pois pensaria que à essa hora já estava ligada na eletricidade, duzentos e vinte volts, e que isso não faria tanto bem assim aos seus circuitos, principalmente os mais delicados. Olha para o relógio e decide repousar mais um pouco, mas o botão de desligar está emperrado e não consegue voltá-lo à posição de desligado. Então antes de desesperar, lembra-se do sonho do qual acordou : um navio gigantesco, uma viagem de navio, e o navio choca-se com um iceberg em algum mar do Norte e começa a afundar. Lenta, a água começa a invadir todos os compartimentos. Não se lembra de haver milhares e milhares de sobreviventes, apenas os vê rumando para o convés, e decide imitá-los. Passa pelo teatro do navio, já inundado, onde outro navio faz evoluções no palco, como uma baleia amestrada que apita seu apito de vapor. É a peça do naufrágio, a que levam nesse navio, para que adultos e crianças saibam dos perigos do mar e fiquem entretidos, na tempestade ou na calmaria. As escadas vão dar em um salão, longo e envidraçado, onde não há botes salva-vidas, mas carros e limousines que chegam, recolhem seus ocupantes, e partem, rumo à sobrevivência. Espanta-se em perceber que há um carro a ela destinado, entra no carro e senta-se no banco de trás, como uma grande dama de metal que é levada por seu motorista invisível, um computador que dirige o carro sozinho. "Para casa", ela diz, e o sedã reluzente e prateado, leva-a por estradas sinuosas pelas quais jamais andou; por fim começa a reconhecer que está perto de sua casa. O carro para, abre-se a porta, e ela desce. O carro arranca e ela vai andando em seus passos metálicos, silenciosamente até entrar na casa. "Eles devem estar dormindo", desliza silenciosamente até seu quarto, enquanto pensa nos humanos que acordarão daqui há pouco. Aperta o botão, a porta abre-se e ela entra no quarto. Lá está ela, deitada no seu simulacro de cama sem colchão ou cobertor, com seus olhos eletrônicos fechados que movimentam-se aleatórios, por detrás das pálpebras metálicas e eletrônicas. Abaixa-se e sorri, contemplando seu próprio rosto; com sua mão esquerda tenta acariciar sua própria face, metálica e fria, enquanto que os dedos da outra mão procuram o interruptor, na altura do quadril. Sem pensar muito, ela aperta o botão, e finalmente o interruptor desliga-se : os olhos param de correr por detrás das pálpebras metálicas e eletrônicas. Procura o relógio, inútil procurar tanto assim, não importa muito que a noite passe, que a madrugada termine, que a manhã comece : eternidades hão de se passar, talvez seus olhos fechados não as percebam; um dia talvez conserte esse botão que está quebrado, o botão que liga e desliga, mas por enquanto, enquanto esse momento não chega, melhor é ficar desconectado, temporáriamente desconectado.



Escrito por Caio às 10h04
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